sábado, 27 de maio de 2017

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BANHEIRO RIMA COM DINHEIRO




Ele, particularmente, não via sentido nenhum nessa história de ler no banheiro. Seja no fato de ir ao WC para ler, ou de ler enquanto  não se resolvem pendências fisiológicas de naturezas diversas.

Ainda que até hoje se desconheça exatamente o porquê de se transformar vaso sanitário em poltrona de biblioteca, a verdade é que o hábito parece inerente à raça humana. Dessa constatação, veio a pergunta: como ganhar dinheiro com isso?

Uns quatro dias depois apareceu a resposta, no banho, ao ensaboar o sovaco esquerdo. "Lógico!, gritou ele. Histórias no papel higiênico!!!"

Enquanto negócio, a coisa era realmente promissora. Não só pelo ineditismo do produto, mas também pelo previsível aumento desenfreado do consumo. Se, para uma pessoa, cinquenta centímetros de papel é medida suficiente para determinada função, com a novidade a metragem média poderia multiplicar-se de maneira espetacular, dependendo do interesse do usuário e da capacidade da história em segurar sua atenção. 

A "plataforma de leitura" mostrava-se suficientemente versátil para os mais diversos perfis de público. Pessoas não muito afeitas à leitura poderiam adorar charges de dois ou três quadrinhos, mais visuais e com pouco texto. Os amantes de obras-primas da literatura universal teriam à disposição a versão integral do "Dom Quixote" condensada em um rolo de 30 metros, ainda que em letra de bula. Já os praticantes de leitura dinâmica ficariam à vontade para devorar a Encyclopaedia Britannica em uma sentada. Literalmente.

As possibilidades de adequação seriam infinitas. Para motéis, desenhos e fotos pornográficas, relatos picantes e classificados de sexshops e casas de swing. Para asilos, figuras com pontos de crochê e táticas invencíveis no dominó. Para colégios, colas prontas para provas de todas as matérias. Pensou também em uma versão com palavras cruzadas, mas desistiu do intento pela necessidade de caneta e pela fina espessura do papel.

Mais tarde, pesquisando no Google, descobriu que seu lampejo genial não era tão inédito quanto imaginava, nem tão lucrativo quanto parecia. Três ou quatro visionários já haviam se aventurado pela empreitada, sem grande sucesso. Um dos projetos, que chegou a ser implementado nos Estados Unidos no final dos anos 70, contemplava um mecanismo perverso de fidelização do consumidor: a história chegava ao auge do suspense no final do rolo e terminava nos primeiros metros do rolo seguinte, coagindo o usuário à compra de fardos extras. Na época, os gringos acharam que ficariam milionários, mas erraram feio. E estão até hoje enxugando as lágrimas com o estoque encalhado de papel.



Imagem: geektoypia.com
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quarta-feira, 24 de maio de 2017

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Os dias em chamas


           
as palavras em branco não me movem
quero as palavras vindas da boca
a boca indo em direção a outra boca
mas caminho a passos úmidos pelo calçamento
porque as bocas são para serem beijadas
acima o céu cinza é reflexo do chão
desejadas, queridas e abraçadas
nas línguas de sonhos
transmudadas
na realidade os dias
em chamas
          
           
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terça-feira, 23 de maio de 2017

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VOCÊ e EU



“... se você for retirada / do interior desta ostra / Que sou eu / Que seria eu? / Meu mundo quebrado / Não mais haverá / Razão para que eu viva / Pois a partir do dia em que conheci você / Meu mundo passou a ser seu...”
(Amir Carlos)

Entre você e eu se levanta um muro de saudades, e somente nós podemos nos dar ao “luxo” da renúncia quando nada dizemos. Dessa vez, a voz metálica diz adeus. Segundo Ricardo Valverde, “Você e eu //...você me apareceu / ...um sentimento nasceu / ...de repente você desapareceu / os meus telefonemas não atendeu / as minhas cartas não leu / e nem mais escreveu / porém aqui estou eu / de coração aberto esperando para continuarmos / aquilo que começamos / você e eu...”
Sua falta me alucina na bendita solidão que me funde na saudade. Folhas ao vento o chamam e eu me refugio nas lembranças e abraço a sua ausência. Pedro Du Bois revela, “ver o momento de dor / no olhar de quem perdeu / a hora de amar e passará a vida / procurando em cada gesto, / palavra e movimento...”
À noite, meu pensamento se cruza com pesadelos, que se aprofundam nas lembranças, como se fossem a alegria saudosa em perfeita desordem, igual a um livro de vento sem palavras e folhas sem asas, apenas o sentimento da sua ausência, como em Patrícia Hoffmann, “...vulto complexo, / no espelho da alma / o teu reflexo, / sempre ausente...”
Nos sonhos, venço o muro das lamentações e encontro dentro de mim a sua memória e assim não me envergonho do sentimento que nutro por você. Essa memória cobre a noite em desamor e eu invento razões para não esquecê-lo, porque vejo seu rosto em perdões e guardo segredo.
Seus braços permanecem fechados, fico angustiada e invento sua volta ao meu desvalido coração que sopra a saudade em eco, por onde me perco em sonhos na hora em que decifro o seu olhar; nas palavras de Lima Coelho, “...Extremas saudades! tristezas que não se acalma, / Resumo doce e amargo de um sofrimento, / que me faz meditar, a todo momento.”
Penso em nossos momentos e sinto seus beijos em meus lábios e o meu rosto marcado diz o quanto mais gostaria de lhe amar; então, insisto em ouvir a voz do coração: não seremos um do outro. Perco-me em palavras no eco escuro e as noites se tornam de insônias. Busco desvendar o segredo através do vento que me traz a triste verdade e decifra as lembranças do que foi o nosso amor; misteriosamente, renunciamos um ao outro: você e eu? O poeta Carlos Pessoa Rosa retrata, “... uma sensação de ausência presente, de algo ter carregado de nossas mãos, para se despedaçar no chão.”

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domingo, 21 de maio de 2017

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SOLIDÃO

Feitod de saudades
nos queixamos
e deixamos que o mal
vença nossas barreiras
e se alastre em sentimentos

perfeitos em nossa solidão
no decorrer da jornada
de forma servil

servos das passagens ruins
deixamos crescer a nossa dor
alimentada na inconsequência
de vagos gestos de retenção.

(Pedro Du Bois, inédito)
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sábado, 20 de maio de 2017

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LADRÃO PREVENIDO VALE POR DOIS



Se você pensa que quem arrisca a vida é bombeiro, PM da favela da Rocinha ou dublê do Chuck Norris é porque nunca foi ladrão na vida. Nossa categoria deveria ter direito a adicional de insalubridade, tamanhos os riscos a que nos expomos.

Em nossa estafante labuta, os verdadeiros roubados somos nós, profissionais da contravenção. Estamos o tempo todo a um passo do Instituto Médico Legal, e por ameaças muito mais letais do que a ação da polícia. 

Não estou nem aí se deixo ou apago minhas digitais no local do crime. Uso luvas (aliás, duas em cada mão, para a eventualidade de uma delas arrebentar) com a intenção de me precaver de verminoses, dermatites, eczemas, micoses, sarnas, gripes e até mesmo lepra, dependendo do naipe do assaltado que sou obrigado a encarar para ganhar o pão de cada dia. 

O mesmo vale para o capuz. Tudo quanto é meliante veste para não ser reconhecido pelas vítimas ou pelas câmeras de segurança, mas para mim isso é o que menos importa. Uso para evitar vírus, especialmente do início do outono até o fim do inverno. E, mesmo no verão, só visto capuz de lã. Vai que a temperatura muda de repente, né? Nunca se sabe, esse nosso clima é cada vez mais louco e a meteorologia não acerta uma. 

Quando o assalto é na rua e levo o otário até o caixa eletrônico para sacar o dinheiro da conta, me embrulha o estômago olhar para o visor do equipamento. Aquelas marcas de dedos no vidro, todo engordurado pelo manuseio de milhares de clientes... fico imaginando a orgia de microorganismos que é aquilo, uma explosiva arma química de efeito devastador. O sujeito que sem querer coloca a mão na boca após ter feito o saque leva, junto com o dinheiro, umas duzentas doenças pra casa. E se no visor é assim, quase vomito ao pensar no horror que deve ser o leitor de biometria. A camada de gordura ali justifica uma lipoaspiração ao final do expediente. Arghh!!!

Mas a pior parte vem quando o assaltado entrega a grana pra gente. Nada é mais sujo do que papel-moeda, mesmo não sendo de caixa 2 e nem tendo passado pela cueca de ninguém em Brasília. Eu diria que não há diferença entre manusear uma nota de real e dar um mergulho no Tietê. Sinceramente, não há dinheiro que pague o nojo das bactérias. Comigo o negócio é sem contato manual, por isso já obrigo a vítima a colocar o dim-dim dentro de um ziploc para afastar qualquer possibilidade de contaminação.

Se o assaltado reage e sou obrigado a mandar o dito cujo conhecer Nossa Senhora, eu não descuido: trago sempre na minha maleta de trabalho um traje completo de escafandrista, para evitar ser atingido por gotículas de sangue na hora de estourar os miolos do infeliz. Vai que eu morro infectado. Além do mais, mancha de sangue na roupa dá o que fazer pra tirar. 


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quinta-feira, 18 de maio de 2017

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O Livro Do Que

              
Foi lançado ontem, 17 de Maio de 2017, pela Amazon “O Livro Do Que”.
             
“O Livro Do Que” é o quinto livro de Jorge Xerxes. O primeiro publicado exclusivamente em versão digital. Sessenta e seis páginas do que há de melhor na imaginação e na fantasia em prosa, poesia e imagem deste autor inventivo.
              
               

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terça-feira, 16 de maio de 2017

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A ESQUINA


“Era dobrar a esquina para desdobrar o passado...”
(Carlos Pessoa Rosa)

Quando revejo a cidade da minha infância, a ternura me envolve e tenho a noção dos anos passados e dos encontros nas esquinas. É o passado que retorna em lembranças, como o livro, a cadeira, o poema não declamado, o quadro do pintor desconhecido, o disco de Chico Buarque e o vento que escancarava as portas.
Sinto que é importante valorizar a lembrança – a esquina – para cada vez mais entender que a vida é o recolher histórias e, por essa razão, sinto-me feliz. Segundo Álvaro de Souza Gomes Neto, “Em cada esquina desse Porto / As vezes triste e muitas vezes tão alegre / Descubro em passos um compasso de viver / Que sempre sonho que jamais vou esquecer / De procurar uma razão pro meu andar...”
Quando parti da pequena cidade, levei comigo a lembrança da esquina em que havia um jardim, que ladeava a casa onde floresciam jasmins perfumados, que tomavam conta de mim. Nas palavras de Cora Laus Simas, “E hoje, aqui, eu, só, gozando esta fragrância, / vi-me galgando, distante da infância, /os degraus da vida inteira”.
Na incerteza do que vivi postada à janela, tenho a consciência de existir. Com as lembranças caminho a passos lentos, enquanto há a possibilidade de retorno, das quais não tenho vontade de me afastar, porque as tenho como os bons tempos. Fui feliz, por isso não choro. Carmen Presotto revela, “...Até um dobrar de esquina / sentir um parar perdido e / esquecer o caminho...”
Nas lembranças da minha cidade, se destaca o combinar com a turma nos encontrarmos na esquina. E lá deixamos nossas marcas, sejam inspiradas nas posturas de liderança ou com as histórias contadas. De uma forma ou de outra, foi a prova inequívoca do poder transformador da juventude, com a garra de estabelecer conexões afetivas por nossas raízes. A satisfação se encontrava na raiz de qualquer mudança que almejávamos. E isso era a nossa verdade, porque as vantagens de nossas novas atitudes tiveram significado especial: emoções, pensamentos ou apenas as palavras soltas; razões e sentimentos que nos impulsionavam a praticar o velho hábito: encontrar-nos na esquina para conversar. Isto nos obrigava a ter atenção e reflexão para com os amigos, algo que não dependia da opinião alheia. Ou seja, seguíamos nossas intuições e comportamentos como se fosse a realização do novo. Nas palavras de João Carlos Meirelles Filho, “...Todo ruído desviava / meus olhos da angústia / procurando você nas esquinas...”
Retiro da realidade o tempo e contemplo naquela esquina nossas descobertas em inundadas sombras. Reconheço o barulho e as sombras; regresso aos dias para escutar a vida que repousa na memória, como em Pedro Du Bois, “Rarefeito em esperas / apresso o fato: pelas esquinas / ...avanço o instante / e me deparo em retorno”.
O tempo se encarrega de demonstrar os limites da flexibilização dos encontros nas esquinas, trocados pelos encontros em shoppings. Espanto-me, hoje, com as pessoas que falam mal e tem preconceito em relação as esquinas. As opiniões vão além do que sou capaz de imaginar; Carmen Presotto retrata essa realidade no poema Sombras da Esquina, “...Homem da esquina / Ligeira sombra / Sem tua presença / Dobrei meus sonhos / Assombro-me / E não lapido qualquer / falso cristal.”
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