sábado, 9 de dezembro de 2017

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POR FIM, A SALVO



Do tijolo maciço, também chamado de tijolinho, surgiu a ideia. O dia passava sem pressa nem novidades, quando reparou, numa construção perto de casa, que os tijolos possuíam gravados o nome da olaria que os produziu. Ali estava o que há tempos andava buscando. A obra perene, construída agora para consagração futura.

Cada tijolo conteria uma frase, cuja continuidade estaria no tijolo seguinte da fiada. Cada capítulo corresponderia a um cômodo da casa. As janelas e portas, com seus vãos abertos na alvenaria, seriam as divisões em parágrafos, os respiros de leitura ou reviravoltas da trama. 

Deixaria instruções detalhadas, para quando chegasse a hora, sobre onde começar a escavação e resgatar com segurança o original, numa sequência lógica iniciada pelo prefácio - nos baldrames de alicerce, até chegar ao epílogo - no sótão. A remoção do reboco teria de ser feita com técnica e cuidado de arqueólogo, para que nenhuma palavra se perdesse e comprometesse o sentido da sentença. Sim, estava decidido. Escreveria o livro-casa. Ou construiria a casa-livro? 

Uma obra meticulosamente pensada, de conteúdo e forma irrepreensíveis e atemporais, já que não permitiria uma edição revista e atualizada. Assim teria de ser, caso contrário nem começaria a empreitada. Concluído o manuscrito em papel, na sua versão perfeita e definitiva, contrataria a produção cerâmica necessária. Teria de escrever sobre argila fresca, o que limitaria a produção a algumas dezenas de tijolos por dia. Trocaria a digitação no computador pelo trabalho artesanal na olaria. 

O papel esfarelar e apodrecer, o notebook enguiçar, as nuvens de dados explodirem: tudo o que pudesse acontecer não atingiria a obra final e perfeita de sua vida, a salvo para sempre, a menos que houvesse demolição ou terremoto. 

Começou. Mas em pouco tempo percebeu que o que julgava definitivo há três ou quatro dias, carecia na verdade de alguns reparos estilísticos, substituições de palavras, eliminações de advérbios e outros acertos. Isso implicava na destruição, a golpes de picareta, de metros e mais metros já rebocados e secos. E em pontos diversos da construção, dependendo do trecho que queria alterar. O cronograma da obra, previsto inicialmente para dois anos e meio, acabou se estendendo por dezessete anos e onze meses.

Quando, entretanto, chegou ao sótão, percebeu que o livro ainda estava inconclusivo. Por mais que aumentasse o tamanho desse último cômodo, mais o ponto final da trama se distanciava. Até que o sótão acabou por se tornar mais alto que a própria casa, criando um verdadeiro monstrengo arquitetônico. A solução seria erguer um "puxadinho", que acomodasse os capítulos excedentes e não programados no projeto original. Concluído o "puxadinho", ele partiu para uma edícula, depois para uma área de lazer com piscina, sauna, churrasqueira e forno para pizza. Um total de 1.348 metros quadrados de área construída, que armazenam em suas paredes um livro de 427 páginas. No momento, a obra aguarda liberação do "habite-se" na Prefeitura Municipal. 





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JANDIRA ZANCHI - BREVÊ

arquitetura-vegetal-remedios-varo
Ilustração: Remedios Varo



gostaria de dizer que ignoro os fatos
- sem que consinta sabê-los -
enquanto  passam  sobre mim o mal e o mártir
já que na janela do pensamento
se esvaí o brevê do breve e  do erro e do algoz

enfim, se me saísse melhor das bravatas e ânsias de superação
vigiaria o cetro do casulo e do altar
ou me redimiria na luta e na busca ou no fim

mas, permaneço, e não esqueço ou minto, embora, ante as imagens
- graves,  sempre graves – das necessidades e ausências
perceba os primeiros esgares da fuga falsidade
e tenha pressentido olhares e nódoas
por singulares bem estares


ao longe, o bom, o mistério, o ignóbil, o fim, o precário, o injustiçado
 -esse, sempre esse, o acusador, a função realidade -
que sereno infinito no desespero de ser e não poder
verificar as vírgulas e maiúsculas de todos nós
apontar toda tentativa milagre
brevidade do existir
de cada momento jeito sonho eternidade.


JANDIRA ZANCHI (Luas de maçã)


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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

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TRAÇOS INSTIGANTES: paisagens x imagens


Tomo como exemplo a fotografia das crianças sentadas de frente para o mar. Elas estão totalmente integradas à paisagem. A sensação que essa imagem produz, é a de serem “engolidas” pela paisagem, de tão pequenas que se tornam diante do mar; verdadeiros traços instigantes.
A mesma imagem permite outra revelação, a de que a paisagem é tão ampla que a minha imaginação se apresenta num tempo onde há o jogo entre o sentimentalismo e a hora do clik, permitindo-me admirar no espaço a bela imagem do ser diante da paisagem, enquanto arte, e a perceber a diminuição do ser, enquanto traços instigantes.
Momento artístico, descrito através da imagem como movimento, também encontrado na literatura nos traços instigantes da poesia. alguns poetas descrevem a paisagem e homenageiam a grandiosidade do momento, com Douglas Mansur ”... fotografo com os olhos / Revelo no pensamento / Amplio no coração / Distribuo com os lábios e com as mãos / Eternizando os momentos da história”.
A hora do clik registra traços instigantes em que se considera o tempo como o melhor momento, porque, sem amarras, junta o passado ao presente na expectativa de que o futuro seja construído com suas apropriadas verdades.
Busco nos traços instigantes respostas, em diferentes campos e, assim, emocional e culturalmente me fortaleço ao nutrir equilíbrio entre a paisagem e a reflexão da imagem, como relevância e suporte à mente e ao valor que a arte tem na posteridade; não como doação e sim pela qualidade que desempenha em minha vida. Douglas Mansur revela, “Fotografo no claro / Revelo no escuro / Amplio na luz vermelha /Na luz do passado vejo a história”.
Interessante como as pessoas interpretam de maneira diferente uma mesma paisagem. Enquadram a imagem com o objetivo mobilizador do pensamento, dando o toque pessoal à fotografia.
Atualmente, quando vista uma paisagem considerada interessante, a imagem é registrada através do aparelho celular e, imediatamente, colocada nas redes sociais. Essa é uma das variantes do mundo moderno. No entanto, há a tendência de que o uso do celular para fotografar e divulgar traços instigantes estigmatiza comportamentos ditos despojado, não sendo algo culturalmente relacionado à arte, o que seria comprovado apenas pela sensibilidade de cada um.
Traços instigantes: imagem x paisagem, ganha como aliado o aparelho celular no possibilitar desvelar com habitualidade o momento de contemplação. É impacto que põe em xeque a motivação versus arte, emoção versus momento. Que, sem rotulações abre portas para a imaginação em leque de possibilidades para atribuir significado aos traços diferentes, esculpidos através da vivência, com o poder transformador das artes, como escreveu Margarida Reimão, “Uma realidade marcada na moldura de um quadro...”
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domingo, 3 de dezembro de 2017

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LITERATURA E SAÚDE

Associar literatura e saúde nos sugere primeiro uma correção, já que a falta do bem estar físico inspira mais os autores, do que a presença deste, como exemplo: temos o poeta Manuel Bandeira. A tuberculose que arruinou os planos do jovem recifense em se tornar engenheiro, impulsionou-o para a criação poética, doença que o fez viver 64 dos seus 82 anos de vida, com a morte fungando em seu cangote.
Da primeira estrofe do poema Epígrafe, o primeiro do livro A cinza das horas, de 1917: Sou bem-nascido. Menino/ Fui, como os demais, feliz./ Depois, veio o mau destino/ E fez de mim o que quis... Até os versos de aceitação do fim, presentes em Consoada: Alô, iniludível!/ O meu dia foi bom, pode a noite descer..., de 1955.
Também podemos lembrar o jovem poeta Mário de Sá-Carneiro, que de tanto sentir-se mal na vida, acabou cometendo suicídio, em muitos dos seus versos, como estes de Dispersão, há indícios do seu sentir o oco do mundo: Perdi a morte e a vida,/ E, louco, não enlouqueço.../ A hora foge vivida, / Eu sigo-a, mas permaneço...
Adentrando o universo das personagens, a cegueira associada ao ciúme, prende Malu, protagonista do romance Mosaico de rancores, de Márcia Barbieri, num mal estar imenso construído pelo imaginar que tanto lhe causa dores: Tudo está enquadrado em uma foto que não posso ver. O mundo perfeito das ideias.
Mas não dá para esquecer o protagonista de Memórias do subsolo, do gênio russo, o primeiro parágrafo vem bem a calhar para este tema: Sou um homem doente... Um homem mau.Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo. Não me trato e nunca me tratei, embora rerspeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva...
Pisando no solo do real, juntar literatura e saúde de alguma forma me faz percorrer parte do meu percurso como humano, primeiro pensei em falar sobre minha experiência como paciente psiquiátrico, mas como isso é cada vez mais comum, quase banal, pensei melhor e decidi estabelecer uma ponte entre e literatura e a experiência de trabalhar como agente de saúde por sete anos, no jardim Nazaré, zona leste de São Paulo.
Se o Juliano G. Pessanha está certo, toda narrativa antes de ser escrita no papel ou tela do computador, deve ser escrita no corpo do autor, ao longo desse período pude sentir em meu corpo cada história recebida por meio da escuta atenta, ser tatuada em meu ser.
Como bem escreveu Rosa Montero, um dos porquês para se dedicar ao fazer literário, se deve ao fato de não suportarmos a vida sem entretê-la com fantasias, obviamente, que ao longo dos anos como agente, fiz orientações sobre dengue, hipertensão arterial, diabetes, cuidados com recém-nascidos, contudo, havia um grupo de pessoas que ao longo das visitas, queriam apenas falar, narrar suas dores, suas memórias, inconscientemente, há aí a inspiração para boa parte das personagens que construí no meu primeiro livreto, mulheres e homens trabalhadores manipulando seus silêncios, impedidos de agir. Rosa, a escritora espanhola, disse que: A loucura é viver no vazio dos outros, numa ordem que ninguém compartilha. A mãe com o sonho de ter o filho padre, o vê voltando do seminário com o diagnóstico de esquizofrenia, a puérpera que perdeu seu filho depois de um mês de nascimento, o homem com câncer no cérebro que gritava incessantemente o nome da esposa...
Lá nos passos que me levavam para o exercício da função, ouvir as histórias dos sobreviventes, ao longo das visitas domiciliares, o narrador de Walter Benjamin se fez presente na boca de cada um daqueles cidadãos, se esta figura está em extinção no mundo literário, continua viva no pequeno cotidiano dos invisíveis da metrópole, não porque estive na frente de sobreviventes de grandes catástrofes, mas sim porque os dias difíceis daquela multidão de Fabiano e Sinha Vitória, cada um sobrevivia à tragédia da rotina que lhe cabia.


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sábado, 2 de dezembro de 2017

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PRATIC CHRISTMAS



O Menino Jesus de poliestireno injetado, cheio de rebarbas plásticas no rostinho angelical. Parecem cicatrizes de um parto traumático. A etiqueta de preço ainda resiste na nuca do neném, onde se vê perto da orelha esquerda o vírgula noventa e nove da oferta.

A árvore já vem montada, com bolas inquebráveis em lugares fixos. Nada de ficar espetando aquela galharia no caule do pinheirinho sintético, e depois ficar prendendo os adereços todos com ganchos de nylon. Um trabalho do cão, que iria te roubar umas boas horas de facebook e snapchat. Ao fim do Dia de Reis você pode fechá-la como um guarda-chuva, para ocupar um espacinho de nada no armário embutido.

Cartõezinhos dobráveis com estrelinhas cintilantes para preencher com nomes dos participantes do amigo secreto. Rolo de 50 metros para empresas e de 1,5 metro para famílias. Desconto adicional de 7% nos fardos de 20 unidades, para grandes grupos multinacionais ou famílias numerosas. Frete a combinar. 

Etiquetas com mensagem “Topa trocar?” para quem tirou inimigo no amigo secreto. Como a saída desse artigo é enorme, estão disponíveis no varejo em contêineres de duas toneladas. Pedidos em quantidades maiores, apenas sob encomenda.

Rena natalina falante, funciona com uma minúscula bateria de níquel-cádmio de longa autonomia. O espevitado quadrúpede galopa sobre a mesa da ceia, repetindo a surrada infâmia: É pavê ou pacumê? É pavê ou pacumê? É pavê ou pacumê? É pavê ou pacumê? 

Papai Noel de marshmallow, tradição das vovós, receita original do século 19. Composição: estabilizante mono e diglicerídeo, gordura vegetal hidrogenada, espessante carragena, citrato de sódio, aromatizante, flavorizante P4s903, antioxidante, modificador de viscosidade e textura, umectante, ácido tartárico e edulcorantes classes III e IV. Contém glúten. Grátis, 35 metros de pisca-pisca Merry Xing já desembaraçados, para decoração em área interna ou externa. 



© Direitos Reservados
Imagem: www.qrcodematrix.com/christmas-kitsch

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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

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e-terno dito

    
o espaço aeroplano entre neurônios
garantia ao direito de ir e vir
do alto de cordilheiras as ideias
nuvens de dúvidas não atingem
em discos-cores-cheiros-sons
voadores de elevadas expectativas
delas não se engane:
nada por debaixo restará ao ego
ou às intenções mesquinhas
delas me despeço
num aperto de mãos distante
a elevação prometida só se alcança
na mais alta poesia
ainda que não se compreenda
de primeira, de segunda,
ou na enésima tent-ativa
o ônibus da esperança atrasa
mas na hora certa ele para
carrega do ponto para casa
o valente sertanejo
   


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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

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Supersimetria da Razão Áurea




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