quinta-feira, 17 de maio de 2018

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Dezesseis mandalas circulares


O presente estudo apresenta dezesseis mandalas circulares. O objetivo é puramente estético e sensorial.

Estas mandalas são subdivididas em dois conjuntos, sendo oito mandalas Solares e oito mandalas Lunares.

As mandalas de um conjunto (Solar ou Lunar) são apresentadas na progressão aritmética dos números primos de círculos que compõe cada uma delas (2, 3, 5, 7, 11, 13 e 17). É apresentado também, inicialmente a cada um dos conjuntos, o símbolo gerador, não-dual, de um único círculo.

Como o objetivo não é matemático (e também para não desviar o foco dos aspectos estético e sensorial), o arranjo angular para a disposição dos círculos não é explícito. Entretanto, estas equações podem ser facilmente deduzidas por um observador com conhecimentos básicos da geometria analítica. Este arranjo angular é o que aufere o caráter particularmente harmonioso dos símbolos.

Finalmente, observa-se que a progressão das mandalas Solares transmite a nítida sensação de movimento e de ampliação da forma circular (bidimensional) para a forma de um toro (tridimensional) saltando para fora do plano; isto é, pelo acréscimo de uma nova dimensão do espaço.

A progressão das mandalas Lunares, por sua vez, remete a ideia de repouso e de concentração da forma circular original, rumando para o centro, o ponto (adimensional), como se levasse à redução de ambas as dimensões do espaço. 

Na verdade, como a única diferença entre os dois conjuntos de mandalas é a dualidade expressa pelo par de opostos luz e sombra, ambas as percepções estéticas são válidas e ocorrem concomitantemente. Isso reforça a ideia de que com o aumento da freqüência de vibração (maior movimento) é ampliada a capacidade de concentração; ou seja, aquela da percepção consciente.

Mandalas Solares (1, 2, 3, 5, 7, 11, 13 e 17; luz)









Mandalas Lunares (1, 2, 3, 5, 7, 11, 13 e 17; sombra)











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segunda-feira, 14 de maio de 2018

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Sempre


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sábado, 12 de maio de 2018

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DOZE ANOS SEM CANA




Doze anos de cana. Quem dera o sentido literal: doze anos de cachaça. Mas a sentença era inapelavelmente aquilo mesmo. Cento e quarenta e quatro meses vendo, a seco, o sol nascer quadrado. 

Fosse um preso comum, arranjaria com outros encarcerados o goró nosso de cada dia. Ou os gorós, quantos bastassem. O que não falta é jeito escamoteado de fazer a bebida circular com certa tranquilidade nas Alcatrazes tupiniquins. Pinga é artigo facilmente disponível no câmbio negro, como os cigarros, os créditos de celular e outras moedas de troca utilizadas pela turminha em recuperação. 

Mas a cela dele era especial, isolada. Essa era sua desgraça. Até o banho de sol era privativo, sem contato com ninguém. De que jeito arrumar a "marvada"?

Advogados, parentes, gente do partido, amigos, todos eram revistados antes das visitas. Revista brava, sem chance de entrar com qualquer coisa escondida. 

A primeira ideia, meio previsível, foi tirar proveito da notória proximidade com algumas megaempreiteiras (em grande medida responsáveis por conduzi-lo ao novo endereço). A intenção seria óbvia: conceber um túnel ligando a distribuidora de álcool da Petrobras mais próxima de Curitiba à cela do distinto. Ou seja, um "cachaçoduto". O problema é que o porte da obra, 100% executada em nível subterrâneo, com certeza despertaria alguma suspeita, isso se não chegasse a ser totalmente descoberta em razão de provável denúncia da imprensa, intriga da oposição ou delação premiada. 

A segunda alternativa, de execução mais prática e logística mais em conta, seria simular uma incurável e até então desconhecida mania de limpeza. O distúrbio obrigaria que se entregasse ao "doente" quantidades industriais de álcool doméstico, para dar vazão a um compulsivo esfrega-esfrega das grades, paredes, algemas e outras instalações e apetrechos do universo prisional. Evidentemente, os litros de Zulu seriam substituídos por aguardente tipo exportação antes de chegarem às ávidas mãos do dependente, numa orquestração organizacional de causar inveja a Al Capone nos idos da Lei Seca. 

Qualquer que seja a opção estratégica, será preciso agir rápido: há casos em que a falta do álcool causa mais estrago que o excesso dele. O mundo político sabe muito bem do que um abstêmio em desespero é capaz de fazer. E de falar. 



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sexta-feira, 11 de maio de 2018

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ARTE: VOCAÇÃO E PAIXÃO



            A arte de pensar. A arte de não pensar em nada, desperta a calma. Desperta o silêncio.
            A arte de ler uma obra leva o pensamento ao coração. Deixa a imaginação ir e vir espontaneamente. Entregar-se de corpo e alma ao texto faz sentir o prazer tomar conta de nós. Concentrar-se é manter a expressão, sonhar o melhor, despertar.
            A arte de escrever, fazer literatura, leva-nos a pensar sobre as “estrelas” das letras, que nos embalam no tempo. Respire fundo. Sinta a diferença: alguns literatos que nos provocam sensação de bem estar...
            Castro Alves aos vinte e três anos escreveu O Navio Negreiro. O texto é marco do romantismo brasileiro. O mais célebre poema sobre a abolição. Foi o principal nome do período. Morreu aos vinte e quatro anos.
            Raquel de Queiroz aos dezenove anos publicou O Quinze. O livro é uma das principais obras da literatura regionalista do Brasil.
            Álvares de Azevedo morreu aos vinte e um anos e deixou centenas de páginas de poesia e prosa, que estão entre as mais importantes do romantismo.
            Ferreira Gullar aos vinte e quatro anos publicou A Luta Corporal; com esse livro o poeta começou a busca da linguagem que desembocaria no concretismo.
            José Saramago teve editado o seu primeiro romance importante aos cinquenta e quatro anos.
            Essas artes reproduzem a cultura instalada e criada pelas “estrelas” das letras, e mantém certo poder de encantamento. Conforme Antônio Cândido, “A literatura é uma atividade sem sossego.”
            Na arte da leitura encontramos, detalhadamente em seus livros, a produção de cada um deles que, por sua vez, influenciam e mapeiam a atual literatura, demonstrando vocação e paixão pela arte.
            Tem coisas que não mudam; a paixão pela arte é uma delas; sinônimo de sentimento porque é como estar junto de quem nos faz bem. É estar na companhia de escritores e músicos. Sem sobressalto, curtimos os sons e as palavras, como nas sinfonias de Beethoven e, na literatura, a Sinfonia de Cores, de Helena Kolody ou na Sinfonia de Cores, de Fernando Andrade.
            Essas referências ampliam o nosso horizonte e nos levam a confrontar gostos e opiniões; sair da rotina e experimentar outras sensações; aprendizados, que nos encorajam e ajudam abrir nossas mentes e as tornar criativa. Como em Luiz Felipe Loureiro Comparato, talentoso roteirista que, entre tantas produções, em 1983, escreveu o livro Roteiro, que o projetou culturalmente em muitos países. Seu livro é obra única no gênero. Foi editado em vários países da América Latina, na Espanha, na Itália e em Portugal.
            Sempre um produto de suporte às minisséries, escrito devido à experiência que o autor teve na área: Lampião e Maria Bonita, Malu Mulher, Plantão de Polícia, Carga Pesada e O Tempo e o Vento.
            Para Comparato, no Brasil, não só para sobreviver, mas, para manter o padrão de vida é necessário trabalhar quatro ou cinco vezes além da sua capacidade. No exterior é diferente, as pessoas se envolvem durante quatro meses com um roteiro e, nos outros oito meses, estuda, lê e recompõe suas forças para o próximo trabalho.
            A primeira produção de Comparato no exterior foi em parceria com Gabriel Garcia Marquez, com o original do escritor colombiano, “Alugam-se Sonhos”. Também, trabalhou no roteiro de “O Homem que Descobriu o Paraíso”, programa especial para a televisão soviética sobre a expedição de Langsdorff ao Brasil.
            Comparato diz, “Gosto mais de escrever para o teatro. O desafio é maior. Você tem o desafio do espaço e o desafio do tempo. Você pode delirar...”   
            Essa sabedoria é intensa, quando na arte vivemos a intensidade de como ele mexe com o nosso olhar e pensamento e, ainda, sobre o efeito, sobre nós, da sua vocação e paixão pela cultura.

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Um experimento de alquimia


Os sábios alquimistas eram conhecidos por desenvolver investigações a partir dos quatro elementos básicos – a terra, o ar, a água e o fogo. Como estes experimentos foram realizados tão deslocados no tempo pretérito, boa parte da documentação quanto à manipulação destes processos se perdeu. Em parte por conta de traduções ou descrições imperfeitas dos documentos originais, em parte por causa das perseguições sofridas pelos alquimistas durante a idade média, que fez com que este conhecimento fosse tratado como profano, e transmitido secretamente entre pessoas de extrema confiança, apenas verbalmente ou criptografado; ou seja, descrito em linguagem de código.
 
De fato, neste começo do terceiro milênio, é tão pequena a reminiscência da alquimia em nossa cultura, que muito se especula inclusive sobre o real propósito desses laboriosos processos. A tecnologia se desenvolveu, os elementos básicos saltaram daqueles quatro originais para toda uma tabela periódica. Chegamos aos átomos; depois aos prótons, aos nêutrons e aos elétrons; mais tarde a outras partículas elementares, ainda menores, de decaimento rápido. Uma infinidade de processos químicos e físicos foi documentada com grande riqueza de detalhes, viabilizando estes processos a serem reproduzidos com precisão, eficiência e em escala industrial.
 
Tudo isso levou a um enorme progresso intelectual, a geração de riquezas e a melhoria da qualidade de vida do ser humano. Esta constatação é percebida tão diretamente pelos nossos cinco sentidos físicos – a visão, o olfato, o tato, a audição e o paladar – que falar em fogo, água, terra e ar como elementos básicos parece soar exageradamente simplista, ou remeter a imagem de um homem no tempo das cavernas.
 
Por outro lado, devemos nos lembrar de que a idealização do tempo linear é uma premissa do ser humano apenas. Uma forma de nos organizarmos para a manutenção da rotina, e que não presta para nada mais além disso. A história remete-nos a ideia de um tempo cíclico, na medida em que observamos a ascensão e a queda dos grandes impérios, o surgimento e a extinção de espécies, períodos de guerra intercalados por aqueles de paz, ou as altas e as baixas nas bolsas de valores.
 
Na verdade, até as teorias mais recentes da física (as melhores que temos em mãos, o que não significa que representam exatamente como funciona a natureza) já se dobraram ante ao mistério do tempo. A teoria da relatividade de Einstein propôs (e já foi demonstrada experimentalmente) a curvatura do espaço-tempo, que é a soma das três dimensões do espaço mais aquela da evolução no tempo, o meio no qual suavemente navegamos. Segundo Einstein, a maior velocidade possível é aquela da luz, c = 300,000km/s.
 
Por outro lado, a mecânica quântica é a física que descreve o comportamento das partículas elementares; ou seja, aquelas de dimensões microscópicas. O objeto na mecânica quântica tem a característica de se comportar ora como partícula (matéria), ora como onda eletromagnética (energia); e este comportamento também já foi demonstrado através de inúmeros experimentos. O experimento quântico é uma indeterminação no tempo (dualidade) que pode ser representada por uma densidade de probabilidade; por exemplo, podemos apenas saber qual é a chance de um elétron estar em determinada posição num instante de tempo específico. A observação de um evento quântico provoca o colapso dessa indeterminação (dualidade) numa realidade (resultado único), que pode ser aquela de uma partícula ou de uma onda. Também: a observação de um evento quântico (a consciência) afeta o resultado (a realidade). E ainda: tanto a teoria quanto o experimento quânticos apresentam a característica de não-localidade; isto é, a manifestação de resultados coerentes (mesma realidade) simultaneamente (exatamente ao mesmo tempo, ou instantaneamente) em posições distintas do espaço.
 
É fácil perceber que alguma coisa não vai bem com o tempo: A teoria da relatividade de Einstein, válida para os corpos do macrocosmo, descreve um comportamento suave que tem por características principais a curvatura do espaço-tempo e um limite superior para a velocidade. Enquanto a mecânica quântica, a teoria válida para os corpos no microcosmo, é caracterizada por um comportamento dual (partícula ou onda; binário; zero ou um) que se manifesta instantaneamente num resultado único (a realidade) através da observação (da consciência), mesmo havendo distâncias envolvidas. Essa disparidade entre os comportamentos dos corpos no macrocosmo e no microcosmo é coisa de fazer cair os cabelos de muita gente que pensa sobre isso.
 
Ainda que você, caro leitor, seja uma pessoa relax, dessas que acha que não precisa se preocupar com esse tipo de aporrinhação, coisa de quem fica procurando pelo em ovo, por se tratarem de aspectos muito sutis, que não afetam diretamente as nossas vidas, pode ser que você esteja redondamente enganado. E, na dúvida, eu recomendo que a gente fique, por ora, não com o tempo linear que alimenta a nossa rotina, mas com o tempo natural, cíclico, que é aquele sobre o qual nos dizem as revoluções da Terra, a sua translação ao redor do Sol, as fases da Lua e também o movimento das marés. Porque em tempos de smartphone, quem olha para o céu é rei.
 
A verdade é que – a despeito de todo o progresso intelectual, da geração de riquezas e da melhoria da qualidade de vida do ser humano que alcançamos graças ao desenvolvimento tecnológico – a luta pela sobrevivência parece só se agravar. Vivemos, agora, uma das mais graves crises de valores morais. As pessoas acusam-se umas às outras; cada um precisa provar todos os dias a sua inocência; proteger a sua casa para que não entrem bandidos; enquanto trabalha para pagar os impostos, que sabidamente serão desviados; ou compra produtos básicos, que vão ampliar a concentração de renda em favor dos cartéis econômicos. Na luta pela sobrevivência, tempo é o que falta e a natureza nos dá sinais de claros de esgotamento.
 
O pior, a meu ver, é o fato de que – apesar de admitirmos isso – prosseguimos adiante por esta senda nefasta, sem refletirmos sobre as razões de fazermos assim, sem refletirmos sobre o que deixaremos para as futuras gerações, sem refletirmos sobre eventuais desvios de rota que poderiam resolver a grave crise de valores morais. Seguimos como uma manada desenfreada de animais irracionais, guiada pelos seus instintos de sobrevivência, usando sobre os olhos a venda da tecnologia e avalizados pela suposta aura de sermos inteligentes.
 
Independente disso, pouco se sabe sobre os propósitos da alquimia. Há quem diga que o seu objetivo final era aquele da transmutação de metais comuns em ouro; outro possível objetivo seria a síntese de certo elixir para a eterna juventude, ou talvez até um elixir da vida eterna; havendo ainda, como terceira possibilidade, a busca pela tal pedra filosofal (espécie de amuleto obscuro para a profunda sabedoria).
 
Certeza nós temos apenas de que os sábios alquimistas eram conhecidos por desenvolver investigações a partir dos quatro elementos básicos – a terra, o ar, a água e o fogo. E, qualquer que fosse o propósito final da alquimia, ele dizia respeito aos intrincados processos de transformação da matéria-prima no produto final, denominado por quintessência.
 
O processo se iniciava a partir do esquema de uma cruz de lados iguais. Na extremidade inferior da cruz era disposta a terra. Na extremidade superior ficava o ar (ou o céu). À direita da cruz era colocada a água (ou o mar) e a sua esquerda, o fogo. Havia então dois pares de pólos opostos (ou dualidades): ao longo do eixo vertical da cruz, os elementos opostos terra e ar; enquanto que ao longo do eixo horizontal da cruz, os elementos opostos água e fogo.
 
Fazendo um paralelo com o homem, e começando da extremidade inferior da cruz, nós encontramos a terra. A terra representa o que temos de mais rígido e denso em nosso corpo: os ossos e os músculos. Percorrendo a cruz no sentido anti-horário, vamos encontrar a água a seguir. A água representa o sangue que corre em nossas artérias e veias, também o plasma e os demais fluidos do corpo humano. São mais sutis e acomodam-se ao vaso do corpo. Depois vem o ar, que inspiramos e expiramos em ciclos, um elemento ainda mais sutil. E enfim, o mais sutil dentre os quatro elementos: o fogo, que também está presente no corpo humano, especialmente no sistema nervoso, na forma de ampla rede de transmissão dos impulsos eletromagnéticos.
 
Se unirmos as quatro extremidades da cruz, teremos um quadrado ou quaternidade, a partir dos quatro elementos da matéria-prima. Este quadrado está girado de quarenta e cinco graus, formando um losango eqüilátero, a mais simples das mandalas.
 
Segundo os estudos de Carl Gustav Jung, o desenvolvimento psicológico do ser humano se dá pela circumambulation, que é a circulação ou dança em torno dos objetos sagrados. Essa circulação é a experiência incessante de movimento da consciência evitando a estagnação nos extremos de uma das polaridades apenas destes elementos duais, o que seria muito danoso sob o ponto de vista psíquico. Ainda segundo Jung, o processo do amadurecimento psíquico se dá através do conunctio, que é a conjunção, ou equilíbrio dos elementos opostos, numa união, integrando de forma saudável o consciente e o inconsciente. O símbolo da unicidade é o círculo. E se girarmos o quadrado em torno do seu centro, é exatamente essa a figura que vamos obter.
 
Se me permite uma interpretação pessoal, eu diria que estamos sempre realizando essa circulação em torno dos objetos sagrados, tomando decisões conscientes (quânticas) e buscando essa conjunção, ou equilíbrio integrando de forma saudável o consciente e o inconsciente. Essa geometria simultânea seria representada por aquela de uma espiral de diâmetro decrescente, girando no sentido anti-horário em direção ao centro, com saltos representando algumas escolhas conscientes mais significativas. Nesta imagem simbólica da trajetória pessoal do individuo, a redução do diâmetro diz respeito ao processo de tomada de consciência gradual de processos antes relegados totalmente ao inconsciente, e que através da experiência vão se desvelando.
 
Neste artigo apresentei oito dessas figuras. Cada uma das figuras é a representação artística da trajetória pessoal de quatro indivíduos. Cada um dos quatro indivíduos, representados em uma figura, tem como ponto de partida uma das extremidades da cruz. Eles iniciam, então, os seus processos contínuos de circulações anti-horárias, escolhas conscientes (saltos quânticos) e graduais tomadas de consciência. Observa-se que a trajetória de cada indivíduo é única, mas todas elas têm uma orientação preferencial, que é a busca pela conjunção, ou equilíbrio integrando de forma saudável o consciente e o inconsciente, pela absorção gradual de conteúdos antes relegados totalmente ao inconsciente, e que através da experiência vão se desvelando.
 
Essa dualidade entre consciente e inconsciente é uma das coisas mais fascinantes do ser humano. O consciente tem um papel ativo, representando o nosso ego, lidando diretamente com as nossas vontades e escolhas (livre arbítrio), os processos racionais e a interação com o mundo exterior. O inconsciente, por outro lado, tem o papel passivo; representa o nosso self, o si-mesmo ou o eu-superior; responde às nossas escolhas (livre arbítrio) através dos sentimentos; trabalha com os conteúdos emocionais, é o responsável pelas nossas intuições; e a interação com o mundo interior. Nesse sentido, o inconsciente responde por todas aquelas atividades sobre as quais não colocamos o foco momentâneo da consciência; como por exemplo, é ele quem gerencia a maioria dos processos fisiológicos do corpo humano, como a respiração, a pulsação, etc.
 
Por isso tudo, explicado no parágrafo acima, é muito mais difícil estarmos atentos ao inconsciente do que ao consciente. O inconsciente age mais como um mentor, ou anjo da guarda, que está sempre junto ao consciente, mas deixa que este último tome as decisões. No nosso quotidiano estamos fazendo escolhas a todo o momento. Se eu vou até a copa, pode acontecer de eu ficar em dúvida se eu tomo uma xícara de café ou um copo d’água. E são em momentos como este que parece haver duas entidades pensantes dentro de minha cabeça – uma forma sutil de se aperceber as trocas entre consciente e inconsciente. Toda a escolha parte de um evento quântico, de uma dualidade, que provoca o colapso da nuvem de possibilidades num resultado específico.
 
Mas uma escolha tão irrelevante – entre uma xícara de café ou um copo d’água – será mesmo um evento quântico? Ou seja, será que esta simples escolha, pode desencadear implicações quânticas (imaginando aqui um evento quântico com a mesma gravidade como aquela em que foi tratada no parágrafo referente ao microcosmo; isto é, implicações tão radicais quanto a dualidade partícula-onda)? Afinal, além de terra, água, ar e fogo, do que é feito ser humano?
 
O ser humano é composto por células. São inúmeros os tipos de células com ciclos de vida distintos. Apenas para ter uma ideia, começando pelo sangue: o corpo humano apresenta por volta de 2,4 milhões de glóbulos vermelhos; eles duram entre 100 e 120 dias. Os glóbulos brancos têm ciclos de vida entre 8 horas e 3 dias; e para combater uma infecção, o corpo humano é capaz de produzir entre 40 e 50 bilhões de glóbulos brancos. Já as plaquetas sanguíneas vivem de 5 até 9 dias. As células dos pulmões duram entre 2 e 3 semanas. As células do fígado, por sua vez, vivem em média 5 meses. As papilas gustativas da língua são substituídas a cada 10 dias. As células da pele tem o ciclo de vida de 2 até 4 semanas. Já as células ósseas do esqueleto humano são totalmente substituídas ao longo de 10 anos.
 
O cérebro humano apresenta em média 100 bilhões de células nervosas. Mas estas células nervosas, também aquelas dos olhos e as células do músculo do coração estão entre as quais permanecem as mesmas ao longo de toda a vida da pessoa. Além disso, o ser humano troca toda a água do seu corpo (que representa 70% de sua massa total) em intervalos de aproximadamente 25 dias. Agora, o mais impressionante é que, do montante total de células do corpo humano, habita nele uma quantidade dez vezes maior de células de bactérias. Estas bactérias se reproduzem por divisão celular e, uma vez que o número total delas permanece constante, podemos estimar que o ciclo médio de vida bacteriano é de 12 horas. Mas este é apenas um valor médio, pois a variedade de bactérias é muito diversificada, existindo algumas delas que podem viver por até milhões de anos.
 
Desses dois parágrafos anteriores, observa-se que o ser humano é a morada de um gigantesco e complexo microbioma. Além disso, fica claro que o homem está muito mais para um processo, um movimento, uma dança, um constante fluir, do que propriamente uma intrincada organização material (que é como geralmente nos imaginamos). E vendo o ser humano sob essa ótica; de uma gigantesca e complexa morada de bactérias, de fungos, de vírus e de células humanas propriamente ditas; fica claro como uma escolha aparentemente tão simples – entre uma xícara de café ou um copo d’água – desencadeará uma avalanche de desdobramentos distintos (quânticos) nesse nível de escala (microbiológico).
 
Assim como o Sol está para Mercúrio, Vênus, Terra, Lua, Marte... enfim, para todo o sistema solar – ele é o provedor de energia que nutre e estabiliza todo o sistema –, assim também o ser humano está para o seu microbioma. E assim também o planeta Terra está para todos os seus habitantes – sejam eles dos reinos animal, vegetal ou mineral.
 
Nesse ponto, parece ficar claro qual o objetivo da alquimia. Estas investigações de intrincados processos a partir dos quatro elementos básicos – a terra, o ar, a água e o fogo tinham como propósito final chegar à essência do ser humano, bem como àquela do macrocosmo e do microcosmo que, por similaridade, são exatamente as mesmas. O almejado resultado do processo alquímico, a quinta essência, é a vida.
 
A vida, este milagre que é a contrapartida do que reza o estágio atual do conhecimento científico. Sim, contrapartida; porque enquanto a terceira lei da termodinâmica demonstra racionalmente que os processos químicos geram entropia, que o estado natural de um sistema, aquele de menor energia, é o caos; está aí a vida, entranhada em todos os níveis das criaturas – do macrocosmo ao microcosmo – demonstrando silenciosamente, como um soberano observador inconsciente: a força da vida é aquela capaz de sustentar o universo.
 
Ao contrário do caos (ou o desmantelamento do sistema para o seu estado de menor energia), a natureza mostra-nos que existe um sentido de orientação da vida que vai das criaturas mais simples para aquelas de complexidade e grau de consciência crescentes. A natureza demonstra também que o mecanismo predominante de relacionamento entre as criaturas é a simbiose; isto é, a mútua colaboração.
 
Se isso não resolve de pronto os problemas de nossa civilização, ao menos aponta um caminho, indica um sentido natural a ser seguido. A luta pela sobrevivência e a falta de tempo não passam de efeitos colaterais de um processo destrambelhado do desenvolvimento humano, um simples resultado (ou reação) para a forma como nos comportamos até aqui. Mas o futuro se faz agora. Basta lembrarmo-nos de que fazemos escolhas conscientes a todo o instante.
 
Eu vejo nuvens de possibilidades adiante. Toda a vez que escolhemos a mútua colaboração em detrimento da luta pela sobrevivência (do egoísmo apenas), certamente teremos dado passos seguros em direção a uma realidade melhor.
 








  
 

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domingo, 6 de maio de 2018

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DANDO PIPOCA AOS MACACOS




"Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos"
(Raul Seixas - "Ouro de Tolo")



A disputa com o ex-futuro cunhado no ossinho da sorte, depois do almoço de sábado. O ato de contrição, a confissão, a hóstia, o Cristo vivo e ressuscitado no coração. O vale-ducha do posto de gasolina para quem abastece trinta ou mais litros de segunda a quarta. O lustro com Kaol na prataria, o zelo com o par de abotoaduras, os sapatos pretos e prontos para a reunião da associação de bairro, a imagem de São Cristóvão no retrovisor do Clio.

Vai que um pneu fura, é bom lembrar de calibrar também o estepe. Vai que chega lá e não tem mais mesa, é bom se precaver e reservar com antecedência o lugar para a família no jantar de caridade. Vai que o tempo fecha de repente, é bom carregar sempre um guarda-chuva na maleta. Vai que o chefe resolve chegar mais cedo, é bom já estar a postos, meia hora antes de todos, para não correr o risco. Vai que o cuco não desperta, é bom dar corda até o fim, e assim que endurecer ainda forçar mais um pouco, para dormir sossegado e amanhecer bem disposto. 

Deus me livre de dar palpite onde não sou chamado, mas a filha caçula do vizinho anda metida com um tranqueira. Longe de mim maledicência e intrigra, mas é mesmo muito estranho um homem temente aos céus andar assim tatuado, com cinco filhos nas costas e patente de major. Olha, não é por nada não - até porque eu nunca liguei para essas coisas - mas que ali tem, isso tem. E como tem. Misericórdia...

Não foi por falta de aviso que a coisa deu no que deu, o quanto que eu alertei! Se conselho fosse bom ninguém dava - vendia; mas como já vi muita água passar por debaixo da ponte, não ia deixar meu compadre ser o último a saber. 

Eu posso não ter nem a metade do que esse sacana do meu chefe acumulou tungando os outros, mas quando eu chego em casa eu boto a cabeça no travesseiro com a consciência tranquila. E ele, será que? Nada como um dia depois do outro para ver quem ri por último. Essa lição e esse exemplo eu trouxe do meu pai. Esse sim, sabia tudo. 

Quando eu tinha sua idade, também tinha pôster, boina e barba do Guevara. Quando eu tinha sua idade, experimentei mas não traguei. Quando eu tinha sua idade, também queria virar o mundo do avesso. Quando eu tinha sua idade, devia ter perdido menos tempo com bobagem e assistido mais episódios do mundo submarino de Jacques Cousteau. Quando eu tinha sua idade, me segurei e respeitei sua mãe até o casamento. Quando se tem 20 e não se é comunista, o sujeito é mau caráter; quando se chega aos 40 e se permanece comunista, o sujeito é retardado.

Nem adianta eu tentar te convencer agora que você está errado, é só quebrando a cara que você vai mudar de ideia. O tempo vai ensinar. Escuta bem o que eu estou te falando.

Imagem: mobilityhelp.com
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quarta-feira, 2 de maio de 2018

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GILBERTO de OLIVEIRA BORGES (GIGI): ecos do passado


                
           
            Você já se deu conta de quanto o passado é importante e que sem ele não haverá futuro? As lembranças dos momentos, os livros, filmes e canções, as ruas, as obras de arte e as viagens, entre tantos, representam a força da história do ser humano e do seu pensamento.
            Relembrar não é pecado, nem proibido, ao contrário, é prazeroso. Talvez, a liberdade total, embora difícil para algumas pessoas que, ao lembrarem o passado, enxergam nas mudanças presentes algo negativo para o futuro. Como demonstrado no livro “15 Dias Que Abalaram Passo Fundo”, do jornalista e escritor Ivaldino Tasca, “... Os acontecimentos locais foram expressão de uma comunidade que tinha exata consciência da gravidade da crise que atingiu a Nação e a consciência clara da postura que os fatos exigiam”.
            A curiosidade pelo eco do passado é o que me leva a envolver com a vida atual. Repito, sem passado não há presente, nem futuro. Sem lembranças não há história a ser contada, nem som que possa ecoar.
            Com carinho, cito passagem sobre a história de Passo Fundo, no poema de Pedro Du Bois, que traz a imagem da nevasca no ano de 1965 que, com saudades, poetiza, “Agosto de 1965 / Lembro tudo / o que aconteceu naquele dia; /... Lembro-me da neve caindo forte / branqueando ruas, carros, os bancos da praça. // O frio intenso. // Lembro-me da suspensão das aulas / das atividades diárias. //... Bonecos, / guerra de bolas, / bola rolando rua abaixo, / chuva congelando a neve. / O frio congelando todos nós”. O texto ecoa o passado traduzido no sentimento de lembrança como sua verdade.
            Nada me desestabiliza mais do que sentir saudades do tempo vivido, principalmente, quando questionada a vida pessoal, os amores e os amigos. Pedro Du Bois revela a amorosa amizade - “almas gêmeas” - com Gilberto de Oliveira Borges, o inesquecível Gigi, como era conhecido: “Passo Fundo / silencia / suas novas chuvas // aquelas que não aconteceram / no último dia de agosto / do ano de 2002 // tivesse chovido / naquele dia / seu coração cansado e obstruído / ainda estaria entre nós // revestido como sempre / do corpo do amigo...”.
            Gigi sempre teve a preocupação de inovar, sem esquecer ou silenciar nos ecos do passado o seu amor por Passo Fundo. Hoje, ele se transformou no ecoar do passado, lembrado, entre tantas ações, pela sua única obra literária de ficção, escrita aos 17 anos de idade, “Uma Terra a Procura do Céu”, romance em que descreve a tradição gaúcha e a vida nos pampas, com suas mazelas econômico-sociais.
            Quando deixamos ecoar o passado, aceitamos a responsabilidade para buscar e identificar as ações futuras que, de alguma maneira, nos fará reviver os fatos no reestruturar e influenciar a nossa caminhada. Curioso é que sempre estamos em renovação que nos permite, através do passado, perceber o mundo atual.
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