sábado, 14 de outubro de 2017

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CAÇAMBA!




Estou com uma caçamba de 5 metros cúbicos estacionada na frente da minha casa. Coisa mais linda, um verdadeiro mimo, com entulho até a boca. 

Resolvi derrubar uma parede para ampliar a sala. Empreitada teoricamente simples, rápida e barata, mas que demandou a locação do compartimento por uma semana. 

Tudo o que você for erguer ou botar abaixo, por mais trivial que seja, abarrota uma caçamba em meia hora. Às vezes em menos tempo. É quando você se dá conta de que a locação de uma semana, o período mínimo exigido pelas locadoras, foi consumida em quinze minutinhos. Só que não interessa, você vai morrer com a locação de uma semana: 250 reais. Com o agravante de que é preciso não perder tempo para tirar a montanha de lixo da sua porta, ligando de novo para o disk-caçamba e implorando por todos os santos que levem embora o quanto antes a geringonça cheia e tragam outra vazia, pois o entulho é maior que o previsto e precisa ser removido para não atrasar a obra e não empacar o pedreiro. 

Há motivos para supor que a locação de caçambas de entulho seja o melhor negócio de que se tem notícia, desde o advento do big bang.

A caçamba é indestrutível. Se a ogiva de um míssil nuclear explodir em cima de uma delas, o míssil vai levar a pior. Não faz muito tempo, aqui perto de casa mesmo, um motorista morreu ao colidir com uma caçamba estacionada.

A conservação tem custo mínimo (resume-se à limpeza interna e à substituição periódica dos adesivos de sinalização refletivos). Sinalização que, aliás, acaba virando outra fonte de renda - funciona como mídia de divulgação do próprio serviço de caçambas e também produtos de terceiros. Elas ficam o tempo todo nas ruas e são móveis, não havendo legislação específica que regulamente a veiculação de propaganda nesse tipo de suporte. 

Mesmo com a imensa volatilidade da economia, o negócio da caçamba vai de vento em popa. Aconteça o que acontecer. Se a construção civil aquece, não há caçamba que chegue para atender a demanda. Se a temporada é de vacas magras, o jeito é reformar ou improvisar um puxadinho. E mais uma vez lá estará ela, impávida, verdadeiro monolito à frente de mansões ou de casebres.

Em todo o nem sempre rentável ciclo da obra, haverá um dono de caçamba com o bolso cheio e o sorriso largo. Imagine só uma empresa locadora que tenha uns quarenta anos de mercado. Essa mesma empresa poderá locar suas caçambas para construir uma casa, para reformá-la e também para remover os escombros de sua demolição. Isso sem falar da receita adicional com a venda do entulho para empresas de reciclagem. Não tem como não dar certo um negócio assim. 

Tudo passa, tudo é destruído, tudo vira lixo. E sempre haverá alguém desesperado, com um telefone na mão, atrás de uma caçamba para tirá-lo do meio. 


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Imagem: www.alugueldecacambasbelempa


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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

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Para Fabi




encontro a Paz no seu abraço
aqueles laços que nos unem
são de Luz
não existe mar revolto
ou tempestade
que nos alcance
mesmo sendo dois
as sístoles e diástoles compassadas
os nossos Corações
em uníssono cantam:
somos Um




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sábado, 7 de outubro de 2017

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ÍNDIO NÃO QUER APITO




"Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul
Na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias
Virá que eu vi"
(Caetano Veloso)


O OVNI de aproximadamente 10 hectares de diâmetro foi descendo lentamente sobre Porto Seguro, no mesmíssimo lugar onde atracou a esquadra de Cabral. Embasbacando os turistas dos resorts. Atrapalhando orgias e ménages à trois. Fazendo despencar das prateleiras vodkas russas e uísques 12 anos. Interrompendo transações espúrias com dinheiro público à beira de piscinas. 

E disse o neo-pajé, de sua nave-oca:

O valoroso povo indígena já ocupou este seu mundo centenas de vezes. A última delas foi quando vocês chegaram, em 1500. Depois passamos a reencarnar em planetas mais evoluídos, como recompensa ao sofrimento suportado na tentativa de nos escravizar. Pelo respeito da nossa raça ao equilíbrio da natureza e ao convívio pacífico, evoluímos muito mais rápido do que vocês. Obedecendo à inescapável lei da ação e reação, da causa e do efeito, viemos retomar a posse do que sempre foi nosso, resgatando assim a dívida que vocês contraíram com nossos antepassados. Rendam-se, entreguem-se sem resistência. Será menos doloroso e mais inteligente de sua parte. 

Vocês encantaram nossos antepassados com espelhinhos, pentes e apitos, passando uma rasteira histórica em quem, na sua pureza, não tinha como se defender. Chegou a nossa vez de deixá-los abobalhados com as nossas bugigangas - uma ou outra maquininha barata de teletransporte intergalático, ou coisa ainda mais rasteira, pois vocês são muito primitivos e se contentam com qualquer idiotice.  

Enquanto ficam feito palermas teletransportando-se de um lado a outro, rindo-se de se matar com essa reles porcaria, nós seduziremos suas mulheres e traçaremos uma Tordesilha básica e provisória, só para fincar nossa bandeira enquanto milhões de nossa raça não chegam para colonizá-los e abduzi-los para o buraco negro mais próximo. Essa nova versão do Tratado de Tordesilhas dividirá seu território em duas partes, uma nossa e a outra também. 

Como já disse, o buraco negro será o merecido destino de vocês. Não seremos hipócritas, com a falsa bondadezinha de demarcar reservas para preservar da extinção seu povo degenerado. Gente da sua raça não vale o ar que respira. Agora, conservem-se em fila para serem marcados holograficamente e aguardarem em silêncio a hora da abdução. 



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domingo, 1 de outubro de 2017

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MARMICHEF




Fazer alta culinária na baixa gastronomia. E teria outra saída? Com o preço estratosférico das trufas negras de Périgord e o poder aquisitivo do brasileiro mais ralo que caldinho de feijão em Belford Roxo, a alternativa mostrou-se tão revolucionária quanto salvadora. O que acabou inspirando pratos como Dobradin (leia-se "Dobrrrradan"), Beef au Rolex, Moela au vin e Gateau Miaux - o manjado churrasquinho de gato mal passado. Todos com a inconfundível marca da nouvelle cuisine, a partir de uma formidável e inusitada harmonização de carnes pré-podres de abatedouros clandestinos.

Estroigros, o mito, emprestou generosamente seu talento, sempre remunerado a peso de ouro, em troca de um salário de zinco. Resolveu encarar a empreitada como um esforço de guerra e um desafio descomunal à sua notória habilidade com as caçarolas. 

O custo final agradou em cheio o populacho. Como na culinária francesa a quantidade de comida é inversamente proporcional à complexidade do prato, as quentinhas eram do tamanho de uma forma de empada, permitindo jogar o preço lá embaixo. O grande problema é que um estivador do porto sai para o almoço verde de fome, disposto a engolir talheres, guardanapo, mesa e cadeira junto com a comida. E quando lhe entregavam o marmitex de grife que mais parecia uma latinha de Pastilhas Valda, irava-se com o motoqueiro e recusava-se a passar o seu cartão Sodex na maquininha, dizendo-se lesado e prometendo relatar o imbroglio todo no "Reclame Aqui". 

Para cada marmitex entregue, correspondiam quatro ou cinco posts destruidores nas redes sociais. A estratégia, a princípio tão original e promissora, ia de mal a muitíssimo pior.

E assim a coisa foi degringolando. Para entregar comida em quantidade industrial, o "grude" teria que ser de péssima qualidade - o que faria de Estroigros um ingrediente dispensável, mandando "a la merde" o único diferencial do negócio. Se continuasse primando pela excelência, seria forçado a abandonar o segmento de quentinhas e voltar ao velho QG, na esperança da crise ir embora e o cliente voltar. Estroigros não sabe o que fazer. E faltam dez para o meio dia. 



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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

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jubARTE

    
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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

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PARCEIRA DO TEMPO



“O que a memória a ama, fica eterno. Te amo como memória, imperecível.”
(Adélia Prado)

Homenagear a dona de casa é dizer da heroína trabalhadora e parceira do tempo. Não quero apenas jogar confetes, mas, dizer que trabalhar como dona de casa é fazer parte integrante dos usos, costumes, hábitos, emoções e da vida das pessoas que convive, porque compartilha respostas, situações e problemas do cotidiano de todos. Segundo Nei Duclós, “Uma dona de casa... / Levanta histórias do passado / e descobre a natureza do pó / que invade a sala...”
Ser dona de casa é dominar um pouco de tudo, como o bom humor, a inteligência, a precisão, a competência, a compreensão, o carinho e o amor. Participar do dia a dia enfrentando as impertinências e, mesmo assim, detalhadamente, dar conta do recado; com o olhar acreditar, deduzir, presumir e adivinhar a graça da descoberta, da cumplicidade na busca da origem para desempenhar seu trabalho com estilo. Ainda em Duclós, “Uma dona de casa está atenta / com os faróis acesos / na escuridão da estrada...”
Acredito que a dona de casa captura a nossa alma e impressiona observar como ela se torna indispensável e importante em nossas vidas; mergulha na história familiar e é cúmplice do tempo, porque o vive como se ele fosse feito de questões envolventes em cada motivo, trazendo para perto as pessoas. Reaviva a consideração que faz sempre renovado o relacionamento.
Não são poucas as histórias sobre as donas de casa; a palavra é reconhecer e agradecer pela sua parceria no tempo e no coração; é quem relaciona a organização doméstica com a necessidade pessoal de aquecer a alma e proteger o lar. Vera Costa Vianna expressa, “Seus sonhos e a esperança, a fortuna, a beleza, / tudo fosse ilusão e não restasse nada, / E eu só tivesse a Ti, / ... Eu seria feliz!”


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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

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A PALAVRA QUE FALTA




E era a palavra. A que faltava. Não a que se esperava. Previsível. Normal. A de sempre. Nem a inventada sob forma  e fornalha. Quente. Agredida e medida, escrava e escavada em árido terreno. Brilho efêmero e calculável.
Era aquela outra. Da boca de um povo que ainda não era. Ainda não pronunciada. Uma palavra por vir. Mais de força que de regras. Mais de potência que de gramática. Palavra a-gramatical capaz de zombar e agredir a mãe de todas as línguas. A senhora exata. A palavra rebelde. Revolta. Tantas e tantas voltas. E sempre a diferença surgindo. Voltas e retornos não mais os mesmos. Não iguais, não mais o mesmo.
Uma palavra-arpão nas costas de uma enfurecida Moby-Dick... Carregando todos para a densidade da tragédia, para os limites, para além de qualquer borda. Palavra de olhos vermelhos surgindo. Louca como um Artaud. Soprando sua gramática. Nova. Arpão no coração da norma. Da única forma. "I would prefer not to." de um Bartleby.
Negar o verbo fácil. Resistir à pura interpretação. Talvez uma palavra venenosa. Perigosa. Como aquelas produzidas por Jorge de Burgos na obra de Umberto Eco. Não mais para calar o leitor, não mais para esconder, mas sim para levar o leitor a outra dimensão da palavra. Outro espaço perigoso e arriscado, mas possível!
Ou valises. Palavras-valises. Como as de Carroll ou de Joyce.  “Guerreando a vida inteira quanto à contransmagnificandjudeibunbatancialidade.” E o mundo para. Para na palavra-entranha. Não estranha. Mas nas entranhas da palavra. Palavra movediça, lamacenta, disforme. A-moral. Palavra sibilante, sísmica.
Artaud: O que em mim chamam o homem/ é minha vida e é isto que me é impossível de abandonar,/ mas eu mudarei/meu esqueleto,/meu cérebro,/ meus pulmões,/ meu coração,/ meu fígado,/ minhas nádegas,/ meus intestinos, minha coluna vertebral/ e meu sexo./eu guardarei minha aparência externa com modificações.”
Artaud. Em luta com o corpo. Com a palavra que se constitui corpo. Corpo definido e organizado da palavra.
Eis a palavra que falta. A palavra desnuda de toda vergonha moral, social, histórica. “Gostaria  de eleger palavras que sejam, para começar, nuas, simplesmente, palavras do coração.” Palavras ditas com Derrida ao perceber o olho do animal que o observa. Nu. Palavras que surgem de um devir-animal. De um devir-gato derridiano. Desconstruir a palavra. Derrida. Atingir um grau zero da escrita. Barthes.
“Parece muito habilidoso para explicar palavras, Sir”, disse Alice. “Faria a gentileza de me dizer o significado do poema chamado ‘Pargarávio.’?”[1]




[1] CARROL, Lewis. Alice, Edição Comentada. p.205
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