quarta-feira, 16 de agosto de 2017

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Sobre a importância de Plutão e Caronte

    

[Diogo passava os seus dias cuidando de imenso jardim na grande mansão. Em troca daquele seu trabalho simples, natural, daquele seu cuidado às frágeis criaturas do reino vegetal, é que ele garantia sustento](1). A contrapartida de suas mãos calejadas: o quarto singelo para repousar o seu ser à noite, ante a gravidade da terra e o etéreo das estrelas flutuantes, acima de sua cabeça; um bom prato de comida que Luiza preparava; e água a vontade, para beber, lavar o corpo e dar de beber a sua verde companhia.
   
(1) Esta primeira frase se refere ao consciente de Diogo.
   
Daquela sua simplicidade singular irradiava o sorriso ingênuo, e um brilho por vezes inconcebível, que habita apenas os retardados e os mentecaptos. Diogo não entendia das coisas do homem, cada cuidadoso golpe de sua enxada separava, paulatinamente, as ervas daninhas das mais variadas espécies de plantas, e resultava em gotas de suor que lhe corriam a face. O mesmo sol que possibilitava a fotossíntese castigava a sua cara.
   
Os elegantes moradores da mansão avançavam orgulhosos com os seus visitantes através de caminhos cuidadosamente traçados, entre magníficas folhagens, as belas flores e sublimes perfumes, mas mesmo estando ali, em meio às plantas, Diogo passava-lhes desapercebido.  E assim Diogo, abandonado na crosta terrestre, crescia para dentro, deslocado da escória do ser humano.
   
Certa noite de primavera, logo após o crepúsculo, Diogo deu-se conta de um corpo sutil e brilhante que recém avistara no céu. Então ele, como uma criança, correu e chamou Luiza para compartilhar da descoberta. ‘Onde está, Diogo?’ Ele apontava com o dedo indicador de sua mão esquerda, ao mesmo tempo em que fechava o seu olho direito, num espetáculo de lhe tirar o crédito, ‘está lá, viste?’ ‘Pois eu não vejo é nada, hôme.’ ‘É pequenino como um grão de areia.’ ‘Deixe de besteira que eu vou me recolher’, disse Luiza, já imaginando que Diogo tivesse com segundas intenções.
    
[As noites e os dias se desdobravam numa sucessão da mesma rotina, como que para imprimir-lhes o duro signo da realidade, de uma vida tranquila e sem sobressaltos para os patrões, do quotidiano sofrido dos empregados](2). Foi durante esse período que Diogo acompanhou a aquiescência do firmamento ao surgimento de nova esfera celeste: esta assomava em volume e brilho a cada anoitecer.
    
(2) Esta segunda frase se refere à ilusão dos não despertos.
    
Todas as noites, um Diogo assombrado clamava por Luiza para compartilhar dessa sua descoberta. Ela olhava, buscava, mas nada via. Ela procurava também perscrutar um eventual desígnio secundário advindo daqueles miolos matutos de Diogo, mas este esforço também, lhe era vão. [Foi exatamente naquela noite quando Luiza finalmente decidiu permitir-se e ceder à aproximação do seu corpo ao corpo de Diogo que, para seu espanto, ela vislumbrou pela primeira vez a pedra celeste que se avolumava e avançava perigosamente em rota de colisão com o planeta Terra](3).
    
(3) Esta terceira frase se refere ao despertar da consciência.
    
Não tardou muito: os observatórios ao redor do planeta só tinham olhos para o asteróide; os cientistas, alarmados, debatiam sobre as implicações e a possível origem de misterioso objeto que viajava em velocidade assombrosa, cruzava o espaço, e seguia em direção a nossa Terra. Os jornais sanguinolentos, os noticiários sensacionalistas da tv, as páginas fúteis da internet, o assunto monopolizava atenções, causando verdadeiro alvoroço, especialmente entre os mais abastados, os mais cultos e os eminentes, que temiam a ideia de serem esmagados como se fossem formigas.
    
Luiza observou um estranho paradoxo no transcorrer daqueles dias. Diogo permanecia absorto pelas demandas com as plantas do imenso jardim na grande mansão. O seu cuidado com as verdes criaturas era inabalável. À noite ele passava a admirar o asteróide, como fizera desde a sua primeira observação da pedra celeste. Um estranho brilho reluzia de seus olhos, algo nas entranhas daquela cabeça matuta e surrada pelo Sol parecia começar a ferver a quentura das ideias. Diogo não precisava ir chamar por Luiza para observarem juntos ao asteróide, ela vinha por vontade própria encontrá-lo, beber daquela sua gradual e crescente sapiência.
    
Certa noite Diogo lhe falou da [alquimia](4), que era para ele a supremacia do espírito sobre a mente, transcendendo a matéria. Ele explicou sobre o conceito do [grande regenerador](5), sobre a necessária transformação pela destruição, queima e consubstanciação de velhos aspectos imanentes para o surgimento de padrões organizacionais mais elevados. Luiza ouvia a essa fala admirada, ao mesmo tempo em que pouco ou quase nada compreendia.
    
    
Outra noite parecia a Luiza que os olhos de Diogo tinham luz própria enquanto ele dissertava longamente sobre a mitologia romana e o deus do mundo inferior. Vez por outra mudava o enfoque, mesmo o seu jeito de narrar, abordava a questão sob a luz de diferente disciplina. Agora o tema era a astronomia. Diogo falava sobre um senhor de nome [Percival Lowell](6) e o projeto de busca do nono planeta, denominado [‘Planeta X’](7), ao alvorecer do século XX.
    
    
Com a aproximação gradual, verdadeira invasão do céu pela misteriosa esfera celeste, que agora competia em área e brilho com a nossa Lua cheia (embora apresentasse tonalidade ligeiramente mais escura e avermelhada), Luiza percebia que os donos da mansão e os seus visitantes estavam às raias da loucura; de tão transtornados pelo medo. Por outro lado, Diogo em sua simplicidade e pureza, parecia exultante com a boa nova.
    
Foi quando a área do asteróide no céu parecia uma ordem de grandeza superior àquela da Lua cheia (i.e., pelo menos dez vezes maior), e a Terra dava sinais claros de exaustão (através da intensa ocorrência de tsunamis, terremotos e a erupção de vulcões); que a comunidade científica admitiu finalmente, em um comunicado oficial à imprensa internacional, que o choque da pedra celeste com o nosso planeta seria inevitável, decretando o fim inexorável da humanidade.
    
Luiza, que assistiu à grave declaração em transmissão simultânea através de seu ultrapassado televisor de tubo, estava inconsolável e foi ter com Diogo. ‘Você já ouviu falar de [Plutão](8)? Esse, que já foi considerado o nono planeta do sistema solar, foi rebaixado no início do século XXI ao grau de planeta anão. Plutão e [Caronte](9)(10), o seu maior satélite natural, caracterizam em verdade um sistema binário, porque o baricentro (ou centro de massa) das suas órbitas está fora do volume definido por cada uma dessas esferas celestes’, disse Diogo com sua tranquilidade habitual.
    
    
Fato é que o asteróide continuou a crescer assustadoramente no céu e, quando o choque e o fim pareciam inevitáveis, o seu movimento subitamente cessou, ao estabelecer com a Terra a configuração de um novo [sistema planetário binário no sistema solar](11)(12).
    
    
Diogo despertou ao meio da noite, num sobressalto. Sua pele eriçada como se lhe soprassem graves os ventos do espírito. O coração batia forte e descompassado, a ponto de lhe saltar pela boca. Dada a sua natureza cabocla, matuta, ignara muito pouco ou quase nada ele apreendeu conscientemente de inusitada experiência. Mas, de alguma forma, esse conhecimento foi incutido às instâncias mais profundas de seu ser. [Como a semente que cai na terra, algo em seu íntimo foi posto em movimento](13).
    
(13) Esta quarta frase se refere ao inconsciente de Diogo.
    
Diogo passava os seus dias cuidando de imenso jardim na grande mansão. Daquela sua simplicidade singular irradiava o sorriso ingênuo, e um brilho por vezes inconcebível, que habita apenas os retardados e os mentecaptos. E assim Diogo, abandonado na crosta terrestre, crescia para dentro, deslocado da escória do ser humano.
    
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Nota de Esclarecimento: A segunda versão deste conto, original do dia 19/09/2011, nasce hoje, no dia 16/08/2017, apenas com notas de esclarecimento referentes a alguns conceitos e ideias de suma importância que podem passar (desa)percebidas ao leitor (des)atento. Agradeço ao Amigo e Poeta Milton Filho que, após uma profícua conversa através de videoconferência, recomendou que eu prestasse maiores esclarecimentos. Espero Que Fique Claro.
    
    
    
    

importância; plutão; caronte; astronomia; psicologia; sonho; inconsciente; consciente; despertar; alquimia; grande-regenerador; percival-lowell; planeta-x; divina-comédia; individuação; dante-alighieri; planeta-binário.
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terça-feira, 15 de agosto de 2017

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ESPELHO



Para Nilto Maciel, “Escrever literatura é um gesto simbólico, que traz uma exigência: a de ser de qualidade. Literatura mediana é pior que a literatura ruim, pois mais do que esta, denuncia a falta de talento e a frivolidade... Portanto, todos são necessários, como na natureza: do verme ao leão”.
Vejo nesta chamada a opção, “Aberta a temporada de leituras prazerosas. O destino você escolhe: pode ser um romance de lavar a alma, uma história real inspiradora, páginas de reflexão...”; digo que não existe fórmula para ler, porém, o coração comanda a vida e magicamente “ouvimos” a sua voz para decidir qual caminho seguir para transformar o tempo e a solidão ao se espelhar no prazer de desbravar o mundo da poesia com W.J.Solha, Carmen Presotto, Mario Quintana, Júlio Perez, Benedito Cesar Silva e Carlos Pessoa Rosa; dos romances de lavar a alma como os de Mia Couto, Agostinho Both, Lêdo Ivo, Virgínia Wolff; dos causos de Miguel Guggiana, dos contos de Júlio Cortázar, Carlos Higgie, Ivaldino Tasca e Jorge Luis Borges; das crônicas de Rubem Braga e Clauder Arcanjo; dos ensaios de Gilberto Cunha, Sueli Gehlen Frosi e Paulo Monteiro . Tantos são os escritores, com seus fragmentos de sentimentos, a traduzirem a história em modalidades que espelham as entrelinhas na mesma intensidade com que a minha curiosidade é despertada pelas obras. Jaime Vaz Brasil reflete, “Sem os olhos quem veria a curva das entrelinhas // ou a frase que respira / na imagem que se adivinha?”
Noto que alguns autores/leitores espelham a cultura como literatura. Tentam mudar a vida com suas preferências que possibilitam diferentes interpretações: “cultura em rodízio”; “cabresto literário”; “intelecto lapidado”; “analfabetismo letrado”; “literatura menos se recebe e mais se procura”; “um livro clareia tudo e não pede nada em troca”. Ao ler tais expressões, reconheço-as como mensagens ideológicas que estão sendo absorvidas, atraídas e impregnadas, como cultura espelhada em nossos dias. W.J.Solha demonstra, “ ...Ser / E / não ser / são as duas mãos da estrada, o sobe – e – desce da escada, / o branco – e – preto da listra, / a mão direita e... / sinistra. // Bem e Mal – causas de adoração e nojo – são as / pistolas de duelo / em vice – versa no estojo”.
Agonia é saber que a “luta” para se chegar ao livro é iniciativa de quem quer repassar as refletidas palavras dos escritores e, assim, evitar não “morrer por dentro”; o que significa não desanimar e nem desistir da leitura para não ficar preso ao horizonte. E, assim, expandir e espelhar a literatura como compromisso cultural, com valores confessáveis de não ter medo da imaginação na hora da realização, por estar aberta à experimentação, sem resistência, como expressa Orídes Fontela, “tecem-se tempo / para um só ato / infindo”.
A iniciativa de quem se habilita ganha agilidade quando aposta no interesse intelectual, por exemplo: dicionário e livros literários à disposição para quem quer se deparar com o efeito das palavras, como demonstra Fernando Py, “... Também o tempo é imaginário / quando percorro a aventura de palavras. Que dicionário / registraria o seu perfil / parece uma audiência futuro / indiferente, quase hostil?”; e, Dana Stephan pergunta, “O que pode atrapalhar nosso grau de satisfação com a imagem refletida?”


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ENTREVISTA COM JOÃO CAETANO DO NASCIMENTO



João Caetano do Nascimento é poeta, jornalista de formação e atuação profissional, trabalha há muitos anos na imprensa sindical. Após anos de criação literária, em abril, ele lançou seu primeiro romance: O rio de todas as nossas dores, sobre o qual conversamos.


João, para aqueles que acompanham sua criação artística por meio de sua atuação desde a década de 70 no MPA ou atualmente por meio de seu perfil no facebook, fica uma questão: Por que um poeta tem como livro de estreia um romance?
Na verdade, eu não me considero poeta. Cometo alguns poemas, digamos assim. Poucos sabem, mas sempre me dediquei mais à prosa, mais especificamente, o romance é o terreno em que trilho com mais familiaridade. Este é o meu terceiro romance. Um anterior chegou a ficar entre os finalistas do Prêmio SESC de Literatura Náufrago Noturno, mas como eu considerava uma experiência de linguagem, resolvi não torna-lo público.

No início do primeiro capítulo de O Rio de todas as nossas dores parece haver sobre as mãos do romancista, a mão do jornalista, há uma espécie de lide. Em que medida o jornalista colaborou com a criação desta obra?
Realmente, minha ideia era dar um início quase jornalístico e, à medida que fosse avançando a narrativa desse capítulo, eu mudaria o foco para a primeira pessoa, que é o que eu fiz, como para lembrar que a narrativa sempre traz consigo um olhar particular e uma interpretação própria dos fatos. Ela não é isenta. Todos nós temos lados, visões de mundo, presentes na forma com que vemos e relatamos as coisas.

Após o lide parece haver um diálogo com a pintura, logo na primeira página, já o final e alguns outros momentos da narrativa propõem um diálogo com o cinema. Como outras linguagens te inspiraram ao longo da escrita do romance?
A ideia inicial do romance nasceu de uma observação sobre pinturas da idade média. Notei que ao nos aproximarmos do período do renascimento, ia ocorrendo uma lenta mudança temática e vi alguns quadros com uma espécie de santificação das pessoas comuns, retratadas com detalhes ao fundo que lembravam auréolas. Daí, surgiu na minha mente uma imagem muito forte: uma mulher do povo, simples, rosto marcado pelo sofrimento, com um olhar que trazia uma história de revoltas reprimidas e de um passado contraditório. Por trás desse rosto, eu vi um sol amarelo, redondo, uma auréola. Assim nasceu minha primeira personagem do romance, Celestina.  Outros fatos surgiram de lembranças e imagens reais ou imaginárias que eu trago comigo. Talvez por isso, essa aproximação que tantos falam com a linguagem cinematográfica, pois o romance surgiu a partir de imagens. Há ainda uma personagem, cujo texto, foi todo calcado em cima de tangos e boleros. Queria criar um clima de mau gosto, de lugar comum, de estranhamento, onde verdades e mentiras misturam-se. Não achava um tom que me agradasse, mas me vinha à memória um verso antigo de um bolerão. A partir daí, construí toda a apresentação da personagem através da colagem de boleros e tangos. Gostei desse efeito que trabalhei exaustivamente no texto para que não destoasse e não chamasse demais a atenção do leitor.

Há pouco tempo, em entrevista para o programa Trilhas de letras, o editor Carlos Andreazza disse que a literatura contemporânea não tem se ocupado em criar grandes personagens. Acredito que o seu Luís/Vicente é uma exceção no atual cenário literário. Como foi o processo de criação deste personagem? Antecede a obra ou ele foi construído ao longo da feitura?
Tive a preocupação de, além de tudo contar uma boa história, com personagens vivos. Foi um processo rigorosamente construído, a partir da história de uma vingança, mas cada detalhe e cada personagem construído com rigor. Fiz para meu uso, fichas com toda a vida deles, mesmo com o que não narrativa. Nas primeiras linhas do capítulo Primeiro Dia, eu brinco com o leitor sobre isso. Tudo vai surgindo na neblina, um rosto que vai se revelando, um local que vai aparecendo aos poucos, mostrando como é o próprio processo de criação. E deixo escrito claramente que há coisas que não vou revelar. Todo o romance é também uma reflexão sobre o ato de escrever, sobre ficção e realidade e sobre o processo de criação. Pelo menos, tentei fazer isso.

João, O rio de todas as nossas dores toca em questões presentes no atual momento político de nosso país (Atuação de sindicatos, a busca para esclarecer alguns crimes ocorridos na ditadura, enriquecimento de pessoas que colaboraram com o regime). O presente interferiu na concepção do romance?
Aí vale a lição de meu mestre, o escritor que leio e releio constantemente, Osman Lins: “. Busco as respostas dentro da noite e é como se estivesse nos intestinos de um cão. A sufocação e a sujeira, por mais que procure defender-me, fazem parte de mim – de nós. Pode o espírito a tudo sobrepor-se? Posso manter-me limpo, não infeccionado, dentro das tripas do cão? Ouço: ‘A indiferença reflete um acordo, tácito e dúbio, com os excrementos’. Não, não serei indiferente”. Eu tentei ampliar com a narrativa o entendimento das coisas, levantar o pano que encobre o real, mas tendo o compromisso também de refletir sobre o meu tempo, sobre as pessoas e os acontecimentos presentes e tomar posição sobre isso. Tenho lado na vida, convicções que estão claras também no romance.

Um fato ocorrido na infância do protagonista, o acompanha ao longo dos 28 anos de hiato temporal aberto na obra. O homem passa a vida ruminando o que sentiu ainda criança?
Um fato que leva o protagonista a uma viagem para entender o que aconteceu com ele e fazer justiça. Ele se propõe a ser a consciência, o que procura levar o acerto, limpar as impurezas, embora tenha claro que sua ação poderá criar novos erros. Ele deixa pistas sobre o significado das coisas. Não vou avançar nesse campo, mas Vicente deixa sinais pelo caminho nos símbolos e letras. Eles não foram colocados ali à toa, procuram dar um significado mais amplo à obra. Aliás, tentei não deixar nada entregue às mãos do acaso. Foram dois anos de escrita praticamente diária. Em cada nome, data, número e imagens eu procurei dar um sentido, reforçar uma visão de mundo e tornar possível algumas leituras, além da história propriamente da vingança.

No prefácio, Daniel G. Lopes chama a atenção para a importância do espaço (Vila da alegria) na obra, se assemelhando ao Cortiço, de Aluísio de Azevedo, influenciando na interioridade das personagens da vila. No início é dito que a Vila fica localizada em São Miguel Paulista. Quais foram as fontes para criar o cenário-personagem da sua obra?
A Vila da Alegria eu situei em São Miguel Paulista, mas poderia ser um local em qualquer outra grande cidade com bolsão de pobreza. Ajuntei na construção dessa vila um pouco de muitos lugares reais e imaginários, Eu, como o próprio personagem, também tinha um mapa detalhado de todas as ruas e vielas dessa Vila da Alegria. Daniel Lopes chama atenção para isso, a Vila é praticamente uma personagem a mais na narrativa. Ela e o rio que Vicente irá encontrar no final têm caráter simbólico.

A presença de Alice, uma moça nascida num ambiente burguês, que por conta das reviravoltas do destino, acaba na vila, onde organiza uma associação de moradores, é constatação que o proletariado não consegue se organizar por sozinho?
Na verdade, no final da década de 1970, a zona leste recebeu muita gente, de outras regiões, com formação universitária. Gente que veio para se engajar nos nascentes movimentos sociais. Isso foi um fato comum, que eu usei como referência para Alice, numa circunstância diferenciada.  O conflito de Alice é, eu diria, existencial. No local, onde ela passa a morar, já havia a organização sindical. Ela ajudou, sim, na organização dos moradores, mas não tenta substitui-los em momento algum. Entretanto, sobre isso, valeria uma longa discussão política sobre o espontaneismo ou não dos movimentos, debate que não cabe aqui. Alice é, e se coloca, como um elemento de fora, alguém que está em busca de seu lugar na existência, que não é dali, que é de classe social diferente, mas que acaba se identificando e encontrando uma razão de viver no meio daquela gente. Ela descobre uma face dura  do mundo que tantos tentam ignorar.  Com certa ironia, Alice se refere em dado momento à vila como o seu país das maravilhas. Ela é uma parceira na luta. Nada mais. Destaco ainda que tanto Alice quanto Vicente, na verdade, são párias, elementos deslocados e à margem dos dois mundos, mas que acreditam encontrar certo pertencimento com aquela gente. A raiz de Vicente está ali, embora tenha ficado distante muito tempo do local.

O lançamento do romance de maneira independente foi uma opção ou falta de encontrar no cenário editorial uma proposta que lhe agradasse minimamente?
Fugi muito da publicação, durante minha já longa vida. Quando decidi trazer este romance à luz, tive algumas conversas, senti um sinal verde alguns editores. Como trabalho como jornalista há alguns anos, tenho noção de diagramação, de edição, etc. Conversando com Daniel Lopes, ele me sugeriu: já que você tem os meios, publique independente. Era o conselho que eu aguardava. Amigos e pessoas da minha família ajudaram. Alguns, através da leitura dos originais, com sugestões e apontando eventuais incoerências, outros  com a diagramação, consultas de gráficas, etc. O artista plástico Rodrigo Martins  presenteou-me com uma belíssima ilustração que foi a capa do livro. Resolvi a parte burocrática e estamos aí, com O rio de todas as nossas dores.

https://www.facebook.com/joaocaetano.donascimento.1






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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

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FELIZES para SEMPRE


A literatura infantil, apresentada às crianças, geralmente finaliza com o chavão: felizes para sempre, mostrando apenas a fantasia que a criança deseja viver e que, quando adulta, verificará que, para alcançar a felicidade daquela frase, passará por (muitos) marcos na vida.
De fato, crescemos acreditando que seremos felizes para sempre; que encontraremos o amor sincero, o trabalho desejado e a vida perfeita – e, assim, depositamos em nós, altas e, talvez, falsas expectativas. Nas palavras de Júlia Du Bois, “A esperança é feliz”.
Para realizar nossos sonhos e desejos, precisamos acreditar que a felicidade existe e que é sentimento complexo que exige permanente manutenção de nossa parte. Nutrimos, desde cedo, o sonho/esperança de alcançar a plenitude em nosso projeto de vida. Carmen Presotto revela, “Entre o fim e o serei / está o é / - flor umedecida d’eus - / desensimesmando-se por viver”. Segundo Sueli G. Frosi, “Hoje estou feliz... Cercar-se de gente boa e inteligente é o pontapé inicial para que nossos sonhos aconteçam...”.
Apostamos nos esforços diários e tentamos fugir da felicidade instantânea. É comum acreditarmos que sempre haverá mais uma alegria na rotina; a oportunidade de ser feliz no dia a dia. Para Helena Rotta de Camargo, “A felicidade tem índole cigana. Se tentarmos envolvê-la, ela fugirá, ventando”.
Somos movidos pela verdade e temos a capacidade de construir, observar, criar, amar e lembrar que a vida se traduz em novidades. Daniel F. Nunes de Oliveira expressa, “Ando pelo mundo, / coletando milhas, memes e sonhos / Plantando mínimos detalhes cênicos / Aliviando avenças, contemplando diferenças //... Ensinando, aprendendo, inventando todos os dias, / O sentido dessa vida aleatória //... Rolo o dado da vida sem medo / comemorando vitórias, sorte / Desacreditando (o) no azar // Nesse jogo diário...”. Procuramos nos envolver em atividades que trazem o bem estar para nos conectarmos com as tantas realidades.
Ser feliz para sempre é processo repetitivo para fugir da insatisfação, e para rever conceitos em que estamos contextualizados; avaliar nossas conquistas, refletir as perdas e fazer mudanças.
Indagamos sobre o que traz a felicidade. Não sabemos ao certo, mas, ser feliz é prioridade para a nossa realização pessoal e profissional: sentidos dos sentimentos; como em Valmor Bordin, “... Talvez! Padeço outro mundo, / Inocente e distraído, / Ferida alma iludida, / Lutando dentro de mim...” Como diziam os antigos, “com um limão, fazemos limonada”; que ninguém vive só da felicidade. A vida implica desafios e rotinas; conflitos e preocupações; causas e consequências. Ao pensarmos e decidirmos essas situações, encenamos os momentos e criamos uma vida realizada; então, a fantasia se incorpora à realidade: viveram felizes para sempre!
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Inteligência e charadas matemáticas


    
Nestes dias em que tenho frequentado muito o LinkedIn em busca de uma oportunidade de trabalho, observo a avalanche de charadas matemáticas imbecis. Infelizmente, temos de conviver com isso. Com estas pessoas simplistas que acreditam que porque você é capaz de resolver tais e quais charadas, você é genial; e, caso não cosiga resolvê-las, você não passa de mais um medíocre.
    
Vale lembrar que medíocre é aquela criatura de pensamento mediano, vale lembrar que se espera que a média das pessoas consiga um trabalho num intervalo de tempo razoável, médio, comum, medíocre; entretanto, nem sempre isso acontece. Logo, vale nos questionarmos se as nossas bússolas estão, de fato, aferidas. (Estamos mesmo caminhando rumo ao Sol?) E também quanto ao nosso preconceito. O cidadão comum não é, necessariamente, melhor nem pior do que eu, ou você. Ele está apenas na média.
    
Mas para tudo há limites e, para mim, o limite foi ultrapassado pela charada de Penny (ou a charada das 5 crianças). Isso porque não há pergunta, não há matemática e não há charada. Como na filosofia Zen, a verdade é autocontida. O tudo é igual ao nada. E, especificamente na charada de Penny, não há nada a se fazer, senão a perda de tempo.
   
Voltando àquilo que foi dito no primeiro parágrafo, eu acredito que a inteligência pouco tem a ver com a habilidade de se resolver problemas matemáticos e de lógica complexos apenas. Eu “acho” que a inteligência é a capacidade de transitar entre as disciplinas e identificar padrões, a capacidade de encontrar soluções simples e naturais; logo, interdisciplinares e que atendam ao bem comum. Isso é a inteligência para mim.
    
Quando eu vejo o Presidente da República dizendo na TV que o Ministério da Fazenda “estuda” aumentar os impostos sobre os assalariados para alcançar o equilíbrio entre as despesas e as receitas do Estado eu imagino o quanto o governo age de forma não inteligente (colocado assim, para evitar um palavrão), porque claramente se vê que, apesar de ser uma solução simples, esta não é uma solução natural; se trata ainda de uma solução tendenciosa (não interdisciplinar) e tampouco atende ao bem comum. Apenas um exemplo, dentre vários.
    
No mundo corporativo, a filosofia “Go Horse” é o que melhor traduz essa ideia absurda de que se juntarmos uma equipe de especialistas – usado como sinônimo de pessoas inteligentes ou capacitadas – chegaremos a uma solução inteligente. Pode ser, mas não sob a minha ótica. Talvez eu seja medíocre. Talvez eu seja mesmo um imbecil, por insistir tanto nisso.
    
A inteligência – em minha opinião – é o ponto de intersecção das diferentes disciplinas: a matemática, a física, a química, a biologia, as línguas, as ciências sociais e humanas, a filosofia, a história, a geografia, o direito, a economia, as artes e a medicina. A inteligência, colocada dessa forma, é a arte da síntese (ou alquimia). De novo: é a capacidade de transitar entre as disciplinas e identificar padrões, a capacidade de encontrar soluções simples e naturais. Estas soluções são necessariamente interdisciplinares e atendem ao bem comum.
    
Ante qualquer solução que atenda aos interesses de minorias deveríamos nos questionar se as nossas bússolas estão, de fato, aferidas. Porque ainda que você seja um “Horse” – um especialista – “Do Not Go”: pense, reflita, antes de sair em disparada!
    
Lembre-se, enfim, que ainda que a sua bússola esteja prontamente aferida, você não tem o direito de passar por cima de tudo e de todos, e que os fins “Do Not” justificam os meios. Lembre-se que, aqui no Brasil, o Oceano Atlântico fica na direção Leste; i.e., rumo ao Sol nascente. Lembre-se que as águas de um rio fluem através do seu leito, contornando as encostas escarpadas, indo sempre em direção ao mar. Esta é a sabedoria das rochas pontiagudas transmudadas em seixos – um conhecimento natural (muito distinto da mediocridade).
    
E, para terminar, uma boa charada matemática. Para quem tem habilidade e gosta de se divertir com a matemática, sem nunca confundir isso com a inteligência num sentido mais amplo:
    
Se 2 está para 2, assim como 3 está para 10, 5 está para 12, 7 está para 21 e 11 está para x. Qual é o valor de x?
    

    
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sábado, 5 de agosto de 2017

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CARTA DE PERO VAZ - A RESPOSTA



Meu caro Pero, 


Tua carta, relatando a descoberta de novas e tão ricas terras para a Coroa lusitana, causou grande satisfação ao nosso Rei, Dom Manuel. Fui testemunha bem próxima - muito mais próxima do que podes imaginar - dos pulos de alegria que dava a cada parágrafo lido. Era tanto contentamento que se mijava nas ceroulas, ora pois. 

Deves estar estranhando o fato de eu, tua esposa, estar a responder-te, e não o Rei. Mas explico-te em poucas linhas, que espero suficientes para que jamais voltes a pisar o solo português e nem olhes na minha cara novamente. 

Saibas que escrevo-te estas mal-traçadas no leito imperial, onde o monarca agora está a ressonar profundamente após uma alucinante noite de amor comigo. Peço-te o favor de não sentires ciúmes de mim. Como vês, não valho nada, nunca vali, e não sou digna nem mesmo do teu desprezo. Do mesmo modo, estejas certo de que nunca reclamarei direito algum se vieres a deitar, nas redes aborígenes que encontrares, com as índias nuas que te apetecerem. Mas aconselho-te a sempre teres contigo um farto e variado estoque de espelhinhos, apitos e outras quinquilharias a que os selvagens daí parecem gostar tanto. Primeiro, para tornares mais fáceis as tuas conquistas - já que não és nenhum modelo de formosura. Segundo, para acalmares os ânimos dos índios não acostumados a emprestarem suas mulheres para portugueses de segunda categoria como tu.

Afirmas em teu relato que, aí onde te encontras, em se plantando tudo dá. Assim, sugiro que por aí permaneças para iniciar uma nova etapa da tua vida e quem sabe fazer a fortuna que não conseguiste nestas paragens. Sim, Pero Vaz, estou a dar-te uma banana. E desejo que a transformes em abacaxis, palmeiras, cocos, carambolas, macaúbas e tudo mais que puderes cultivar na Terra de Santa Cruz (ou seria Ilha de Vera Cruz?). E que te tornes tão rico e poderoso quanto Dom Manuel I, meu amante desde os tempos em que ainda eras um reles aspirante à esquadra de Cabral. 


Esta é uma obra de ficção.



© Direitos Reservados

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CALVA - JANDIRA ZANCHI

Ilustração: Remedios Varo

recreando nos teclados uma sinfonia, um pouco surda, ao longe
se alongavam de fanfarras... iluminação
veemente sol dos trilhos e bandas nessas marginais de pouca monta
mesclado o terreno
da aparição

furiosos os momentos e sua
 secura
propensos
a palatáveis
vexames
virulentos

a varicela, ainda branda, emergida em seu sânscrito no jardim de uma primavera
caudaloso canto de efêmeros pingentes, colar amoldado ao sorriso em flor

arrebatado verso
e previsão... estrela alva , caminhante,ao longe teus rugidos
nessa malha de fogo são indiferentes
só admiramos o azul de madrepérola fresca de tuas manhãs
e tardes beijadas na noite (noite néscia de nossos desejos, suspensa entre
os goles e os fortes e as cirandas e suas sinas semáforos seqüestrados de deus)

estrela calva, aonde estivestes?
foram seguidos dias de suspensão e matéria e material malquerido e não amado

um suspense....

anedota banalizada as nossas vidas violáceas cruas de suas preces

piano ao fundo fundindo-se de paixão e silêncio

sequencias bravias bravatas frias
...................sem bênçãos

acenos e editais, o vapor consumia
devorador diletante,assíduo, mordaz.

JANDIRA ZANCHI
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