domingo, 18 de fevereiro de 2018

0

QUEM VAI AVISAR A VERINHA?




- Verinha, a vó morreu. Tinha tido uma melhora ontem de madrugada, mas umas horas depois deu outra falência renal e dessa vez não resistiu. 
- O que é isso, trote? Com identificador de chamada, precisa muita coragem pra fazer isso, ainda mais num horário desse. Vou te pegar, deixa ver aqui no visor... 
- Alô, tá me ouvindo?
- Caramba, o pior é que não aparece número nenhum na tela do celular! Mas a voz é igualzinha à do Camilo... Teve infância não, maninho?
- Verinha, é sério. Vai cair a última ficha, e já tem gente bufando atrás de mim, esperando na fila pra usar o orelhão.
- Camilo, para de brincadeira mórbida, a vó morreu em 85 mas pode muito bem voltar pra te puxar a perna! Ou no caso a orelha, porque isso é coisa de moleque, né?
- Então, sua débil mental, a gente por acaso tá em que ano? Parece até que viajou pra 2020, sei lá. Bebeu, fumou maconha mofada, o que acontece??? Meu Deus, eu saio da aula do cursinho pra te avisar e você fica que nem uma retardada aí do outro lado!
- Ah, beleza. O doutor desembargador voltou pro cursinho pra prestar Direito. Agora chega vai, eu tenho serviço, não tô com a vida ganha que nem você. O funcionalismo em Brasília deve estar em greve, não é possível. Ou então você tirou licença-prêmio de novo e não tem o que fazer em casa.
- A enfermeira da UTI disse que vão liberar o corpo às nove e quinze, e o velório...
- Tá, e você vai chegar lá no velório de fusca azul, aquele com câmbio de caranguejo, acertei?
- E eu tenho outro, por acaso? Olha, vai cair a última ficha, mana. Fala coisa com coisa, eu preciso desligar. Respeita a vó, por favor.
- Hahahahaha, fica assim então, querido. Depois que acabar o capítulo do "Roque Santeiro" eu passo por lá. Pode me esperar. 

(dim-dom da campainha)

- Telegrama pra senhora.
- Telegrama??? Combinou a sacanagem com o meu irmão, seu carteiro? Ah, entendi, pra ver se salva a estatal falida vocês agora partiram pro segmento de pegadinhas. Tá certo...
- Olha, é urgente. Melhor a senhora abrir. 

(abre o telegrama)

Verinha (vg) nossos sentimentos falecimento Dona Matilde (pt). Lamentável perda (pt)



© Direitos Reservados
Imagem: wikipedia


[ler na íntegra]

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

0

PÁTINA DO TEMPO


Pátina do tempo é o movimento das palavras que dá significado à obra literária: estilo e detalhes, onde palavras soltas, despojadas, dão o toque pela mistura de ideias e cores, formando uma ação perfeita.
Pode a literatura “despoluir” ao abrir o seu espaço? Penso que sim, porque ler é o encontro consigo mesmo; é uma das maneiras de treinar o olhar sobre a realidade e seus desafios. Por exemplo, Dyonélio Machado, escritor gaúcho que tem sobre si a expressão da literatura; pela ação do tempo; também, lembro Machado de Assis e quanto a sua escrita é contemporânea, porque toca as questões éticas e filosóficas inerentes ao ser humano em todas as épocas.
Porém, precisamos ir em frente, sem as constrangedoras obras de maus livros, que refletem prisões de outrora. Hoje, nas livrarias, encontramos mais volumes de maus livros do que de obras verdadeiramente literárias. Como disse Schopenhauer, “Os maus livros são um veneno intelectual que destrói o espírito. Porque a maioria das pessoas, em vez de ler o melhor que se produziu nas diferentes épocas, limita-se a ler as últimas “novidades”, os escritores limitam-se ao círculo estreito das ideias correntes, e o público afunda cada vez mais profundamente em seu próprio barro”; e, Márcio Catunda afirma “Em livrarias que são cemitérios da cultura, / há editores assassinos da literatura //... Letras lidas com enfado, artes de enganar safado”. Ainda, encontro em Gilberto Cunha, “Um louco chamado Erasmo”, ensaio sobre o livro de Erasmo de Rotterdam, que ele diz ser um dos livros mais famosos e, possivelmente, menos lidos da história da literatura. Esse jogo da literatura versus maus livros é destacado pela incrível manipulação do tempo, levando-nos à finalização dos atos.
Saliento ser possível mudar quando se sabe aonde chegar; é ferramenta poderosa, mas, o que realmente importa é a qualidade da obra. Louis de Bonald ressalta que “A literatura é uma expressão da sociedade, como a palavra é a expressão do ser humano”.
Na contramão, passo boa parte do tempo em companhia dos livros; fujo da mesmice, que a obra literária vem sempre acompanhada de vários tons, onde os escritores surpreendem pela profundidade das palavras e dos sentimento. Deixo a emoção tomar conta, enquanto o olhar assume a sua postura e a minha voz se ausenta, como em Pedro Du Bois, “Quando minha voz / se fizer ausência, entenda o silêncio / como prova da verdade. //Arrume as palavras deixadas / entre folhas, faça frases // e desordena parágrafos. // Minha voz ausente / estará diante / do esforço. Concentre sua hora / na descoberta dos traços”.
Na pátina do tempo o viés de cada escritor varia com a imagem de suas referências e do movimento dado às palavras; todo processo de trabalho provém do universo criativo; aqui, cito Max Martins cuja obra, “Para não Consolar”, representou a renovação da literatura brasileira.
Escolher o que ler aguça a minha sensibilidade e me coloca no ritmo das palavras que desenham o pensamento do autor, assim, percebo a pátina do tempo, isto é, acrescento conhecimentos, exprimo emoções e, aos poucos, construo ideias e valores que dão graça ao dizer e viver; como encontro na crônica “Para quem o autor escreve?”, de Carlos Pessoa Rosa e, também, no texto de T. S. Eliot, de que “Ao ano passado pertence a linguagem do ano passado. E as palavras do próximo ano esperam por uma nova voz”.
Ao deixar o tempo passar, tenho a oportunidade de verificar o que ele traz e, assim, sobreviver na expressão literária, como força libertadora. Esse é o poder da literatura, que permite ao leitor interpretar seus interesses, modificando seu vivenciar – com deleite – no que retira de cada página. Para Luiz Fernando Emediato, “Por onde anda o poeta, que poucos, senão uns iluminados conheciam?”.


[ler na íntegra]

domingo, 11 de fevereiro de 2018

0

GRANDE MURALHA



Os chineses fazem qualquer negócio. Sabem comprar e sabem vender. Arrematam na bacia das almas, passam pra frente a peso de ouro. Têm a manha de copiar o que o mundo faz de melhor, aperfeiçoar e exportar para a Via Láctea inteira por uma décima parte do preço de mercado.  

Um dos desafios atuais do gigante vermelho é como fazer dinheiro do seu maior e mais valioso patrimônio - a Grande Muralha da China. Construída ao longo de vinte séculos, estende-se ao longo de inacreditáveis 21.196 km e tinha como finalidade original defender as divisas do país contra as invasões de outros povos, especialmente os mongóis. 

Com os mongóis deixando de ser ameaça, essa maravilha da humanidade passou a não ter utilidade alguma além de servir de cenário para fotos turísticas. A lenda arquitetada em torno dela, de que seria a única obra feita pelo homem visível da lua a olho nu, caiu por terra em 2004, quando um astronauta chinês afirmou que do espaço não se enxergava muralha nenhuma. Aliás, é de se supor que quem concebeu tal idiotice viajou na maionese, pois nunca esteve na lua para vir com uma história dessas. 

A primeira ideia ocorrida aos neocapitalistas foi bater a marreta em tudo e exportar nacos a preço de banana para cada terráqueo vivente. Mas um chinês de visão dividiu sete bilhões de possíveis compradores pela gigantesca área da muralha e chegou à conclusão de que o souvenir seria maior do que a casa que o abrigaria, mesmo que fosse uma mansão de príncipe saudita. Ainda iria sobrar muita muralha, uma outra solução teria que ser encontrada.   

Hoje, duas alternativas despontam como as mais viáveis para fazer dinheiro da imensa e inútil tripa de pedra.

Reformatório para pichadores brasileiros.
Um inédito acordo de cooperação entre Brasil e China preveria o seguinte estratagema, vantajoso às letras B e C do BRICS:
1) Venda de tinta spray chinesa a preços módicos para o Brasil.
2) Espetacular crescimento de vendas da tinta no mercado interno, pelo custo inacreditavelmente baixo, atraindo pichadores e aspirantes à prática.
3) Aplicação de multas extorsivas aos meliantes pegos com a mão no spray, com arrecadação extra para Estados e municípios. 
4) Deportação dos contraventores tupiniquins para os domínios de Mao-Tsé. Lá, se debruçarão à vontade sobre os 21.960 km de muralha e gastarão 50 latas de spray cada um para escreverem repetidamente a seguinte frase: " A pichação não compensa". Em seguida, receberão do governo chinês latas de removedor e palhas de aço para apagarem da muralha a merda que fizeram. Os removedores serão comprados pelos brasileiros, com vantagens para a China em duas frentes - venda de removedor e limpeza da muralha, que há séculos vem pedindo por uma boa manutenção. 

A outra alternativa em estudo consiste na venda de parte da muralha para Donald Trump edificar o muro na divisa com o México. Essa opção esbarra no problema, até o momento incontornável, da entrega da mercadoria. A parte vendida da muralha teria que ser fatiada em milhares de pedaços, transportada em imensos navios e reunificada no local de destino. A manobra levaria décadas ou mesmo séculos. Até lá, Trump já teria concluído seu mandato e o presidente que o substituísse poderia muito bem mudar de ideia, tornando inútil todo o esforço. 





© Direitos Reservados

[ler na íntegra]

sábado, 10 de fevereiro de 2018

0

BREVÊ - JANDIRA ZANCHI

Ilustração: Gustavo Boggia


gostaria de dizer que ignoro os fatos
- sem que consinta sabê-los -
enquanto  passam  sobre mim o mal e o mártir
já que na janela do pensamento
se esvaí o brevê do breve e  do erro e do algoz

enfim, se me saísse melhor das bravatas e ânsias de superação
vigiaria o cetro do casulo e do altar
ou me redimiria na luta e na busca ou no fim

mas, permaneço, e não esqueço ou minto, embora, ante as imagens
- graves,  sempre graves – das necessidades e ausências
perceba os primeiros esgares da fuga falsidade
e tenha pressentido olhares e nódoas
por singulares bem estares

ao longe, o bom, o mistério, o ignóbil, o fim, o precário, o injustiçado
 -esse, sempre esse, o acusador, a função realidade -
que sereno infinito no desespero de ser e não poder
verificar as vírgulas e maiúsculas de todos nós
apontar toda tentativa milagre
brevidade do existir

de cada momento jeito sonho eternidade.

Jandira Zanchi (Luas de maçã,inédito)
[ler na íntegra]

sábado, 3 de fevereiro de 2018

0

COCA-COLA EM PESSOA




Pouca gente sabe, mas o grande Fernando Pessoa já fez free-lance para a Coca-Cola nos anos 20, quando da entrada da bebida no mercado português. 


- E então, senhor Fernando? Já temos o nosso slogan?
- Aqui está. “Coca-Cola. Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se”. Que me diz?
- Bem... eu entendi o jogo de palavras, muito engenhoso, diga-se. Mas...
- Mas?
- Eu não gostei da primeira parte da mensagem, a impressão que se tem é que o nosso produto causa uma reação negativa. Senhor Fernando Pessoa, se estivesse em meu lugar, precisando de resultados e vendas, sendo cobrado pela matriz e necessitando consolidar a Coca-Cola no mercado lusitano, iria aprovar uma barbaridade dessas?
- Ora pois, que há de errado com o reclame?
- Ao usar o termo "estranhar", o nobre escritor já levanta a lebre que a bebida pode parecer a princípio repulsiva.
- Mas só a princípio. A segunda parte do slogan já rebate essa estranheza.
- Eu entendi o seu raciocínio. Na sequência, temos o "depois entranha-se", querendo dizer que, logo em seguida, o refrigerante passa a ser apreciado. Mas, olha, serei sincero: esse "entranha-se" também não me agrada de forma alguma. Entranha me lembra víscera, tripa, o que não combina nem um pouco com a sensação de sabor e refrescância prometidos pela nossa deliciosa Coca-Cola. 
- Devo entender então que a minha frase foi reprovada por completo? O senhor está fazendo pouco do grande Fernando Pessoa, um gigante à altura de Camões? Um gênio tão inspirado que, não se bastando, teve de criar heterônimos para dar vazão a tudo o que tem a dizer?
- Heterônimos?
- Sim. Tenho dezenas deles, mas quatro são mais famosos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. 
- Entendi. Eu tenho uma sugestão a fazer: por que você não passa a criação do slogan para esses quatro amigos seus? Vai que sai alguma coisa que preste...
- O senhor não entendeu coisíssima nenhuma. Os quatro são eu mesmo. Eu os criei, cada qual com um estilo peculiar. 
- Então! Mais um motivo para passar esse trabalho a eles. Serão quatro estilos diferentes pensando no nosso slogan. Isso é até bom, pois as opções serão provavelmente bem diversificadas. Vocês fazem uma concorrência entre si, e quem fizer o melhor fica com o dinheiro do freela.
- Mas todos eles são uma única pessoa. O senhor sabe o que são heterônimos?
- Olha, não me interessa se é heterônimo, se é Jerônimo, se é Antônimo, se é Anônimo, o que eu quero é o meu slogan. E que seja único e original, como é a Coca-Cola!
- Bem, eu tenho aqui comigo uma segunda opção. Algo assim: "Tudo vale a pena se a Coca não é pequena". Profundo, heim?
- Então, mas aí o senhor valoriza demais os outros tamanhos do refrigerante, e ao mesmo tempo diz que a Coca pequena não presta. E é das pequenas que vendemos mais! Por favor, senhor Pessoa. Admita que as opções não está lá essas coisas e bote novamente essa sua privilegiada cabeça pra funcionar. A sua e a dos seus amigos, esse Jerônimo e tudo mais. Boa sorte, nos falamos na próxima semana. 






© Direitos Reservados

[ler na íntegra]

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

0

CONTAINER - JANDIRA ZANCHI

Ilustração: Aline Rannun


crer ou
perder
(a cada dia)
um desses emblemas
- falsos - 
ou não...

cálidos
como
vale tudo

um aprendizado
seco e faminto

quase cego
e opaco
ou lúcifer

factóides de acertos com o nada

facetas
             claras
clarividentes de espumantes
desse nirvana nervoso
dos que se pretendem
vácuos vacinados vacilantes

hibernados

em um deus de novo container
magro branco arejado
composto de forma a
nunca ser reposto ou removível

tão servo
e saliente
que posso apostar
em decanos
e algum front

uma durabilidade para 4 ou 5 décadas

neon quase plástico na configuração barata e doce

da terra plana.


JANDIRA ZANCHI
[ler na íntegra]

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

0

NADA? ESSE É O SEGREDO


“São tantas as palavras amassadas em amarguras /
que até na Lua / se ouve o pranto desse mundo”
(Carmen Presotto)

Você não sabe dizer não. Está disponível para tudo. Na sua vida, tudo é nada. Entendo que a acusação é forte; ela revela exatamente o que você é: tem problemas em persuadir o homem ou se tornar irredutível à decisão de reagir com violência. Nas palavras de Lígia A. Leivas, ”... Essa tristeza recolho-a e a afago: / Só ela prova insofismável / de que neste real mundo demente / Somos todos simplesmente nada”.
Por que você não esquece o mal entendido e tira essa expressão sombria do rosto, que num impulso transforma em defesa? Impressiono-me com as pessoas que recuam quando se sentem ameaçadas e, em movimento automático, começam a sentir o coração borbulhar, tal as luzes de alerta piscando como força sobre-humana. Ainda, em Ivaldino Tasca, “... Muitas vezes diferença não há, a lenda é apenas a versão do fato que ganhou cor na imaginação...”
Vejo o caminho da agressividade como cópia da forma humana, onde a natureza clama por mais ação. Uma lástima não poder dizer que são apenas contratempos que os deixam exausto e, ao mesmo tempo, os revelam desiludido, quando a mentira cobre o seu pensamento dificultando a vida. Rubens Jardim expressa, “... Sou hostil ao tempo: / não uso relógio / e não suporto o mundo”. Carmen Presotto retrata, “... Ninguém é perfeito, e melhor é imaginar demências em outros. Enquanto borbulhamos cegas verdades, somos normais. Não fugimos e encaramos a realidade sem dramas...”
Sua ideia ocorre em desordem ao pensamento; muitas vezes, chega ao ponto de desvelar gestos mal encarados; com os olhos fixos e a voz áspera embriagando-se com o destino, assim, em Gregório Mattos, “... O meu ódio é mais valente, / pois sou só, e eles são tantos”.
Apesar de você não ter amigos, ainda assim, pensa em algo sombrio, que beira a maldade e a infelicidade, quando a bebida não permite que você partilhe os segredos. Então traz munição para olhar ao seu redor e se converter em espírito maligno, onde o pensamento se parte, rasga, quebra com o choque, quando puxa o gatilho das lembranças. Glauber Rocha demonstra, “Não anuncio cantos de paz / nem me interessam as flores do estilo. / Como por dia mil notícias amargas / que definem o mundo em que vivo. //... A minha loucura é a minha consciência / e a minha consciência está aqui. / No momento da verdade, / na hora da decisão, na luta... // Não se muda a história com lágrimas..."
[ler na íntegra]