sábado, 25 de março de 2017

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DEMORA

Penso a demora
em que posso
multiplicar fatos
e recuperar
na amplitude
as letras refeitas
em cores

a demora sacraliza o impacto
e me devolve a calma
sob marquises
na consideração
do ato

nos fatos restam
horas não acontecidas
no recolhimento.

(Pedro Du Bois, inédito)
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O elixir da vida


          
círculos, círculos
círculos, círculos
ele não é o macho alfa
círculos, círculos
ponto
ele é o espermatozoide alfa
aquele que acertou na mosca
naquela da qual você
pôde vir a ser
um em todos nós
          
             

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YOU HAVE A NEW MESSAGE




1
Um quarto de lexotan, um quase nada, se você mastigar a calma vem na hora - como uma fada invadindo a sala entre tules e incensos. Eu disse, dei a dica, ela no fundo ignora cem por cento do que falo. Lá está, com seus dois olhos que nem piscam, vidrados no monitor do notebook e dando o comando de atualizar página a cada quarenta segundos. Ainda se esperasse algum resultado de biópsia, mas não. Era a ansiedade sem causa aparente, a mim e a quem mais chegasse e não soubesse o que exatamente ela aguardava. E dá-lhe doze emails do groupon, cinco das lojas americanas e suas black, blue, white and pink fridays. Adidas e sua coleção da nova temporada, o mundos é dos nets mas poderia ser dos pets, uma ninhada de beagles nessa campanha. Ela se ajeita na cadeira, respira fundo, faz um alongamento de cervical e fecha os lindos olhos muito mais meus que dela. E a mais certa de todas as verdades do mundo é que se trava agora um duelo entre seus lados - um ansiando para que a mensagem chegue e o envelopinho pisque e outro que desejaria tudo menos a angústia de abri-lo e deparar-se com a crueza cortante do que já adivinhava. Aquilo que não queria ver, se chegasse, mas que acabaria com a morte lenta dessa espera, esse desacontecer fatal. Definitivamente o Criador não desenhou suas criaturas para a paciência.



2
Leve três pares de sapatênis por 199,90. Assine a petição do Greenpeace pelo Santuário das Baleias do Atlântico Sul, shoptime, peixe urbano, tecnomídia, bradesco previdência. Alterna agora entre o "verificar emails" e o F5 do teclado, para variar um pouco. Olha pra mim um instante, vai. Que seja só de soslaio, mas dá um fiozinho de atenção e dormirei nas nuvens. Saiba do aflito que viro vendo a aflição sua. Agora ela cabeceia, começa a "pescar", rendida ao cansaço vão. Desperta com o apito da ronda noturna, limpa os óculos redondos. Parece estar rezando, mas será? Um milhão de caixas de bombons suíços em troca de cinco minutos dos seus pensamentos. Ser feliz pode ser simples: deixa que seja minha essa mensagem que não vem.



© Direitos Reservados
Imagem: stopthespeaker.com

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quinta-feira, 23 de março de 2017

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Adrenalina pura


         
Este texto apresenta uma seleção dos meus versos prediletos de “Surto Poético Delirante”, livro da minha Amiga e Poeta Ana Lyra, Colecção World Art Friends IV, Corpos Editora, ISBN: 978-989-617-577-1, cuja primeira edição é de outubro de 2009.
        
“Surto Poético Delirante” transita, em doses exatas, de sentimento e de intensidade. É adrenalina pura na forma de versos. Inspire-se Você lendo!
        
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
PREFÁCIO
Uma manifestação artística, de uma forma quase cística, do meu eu poético. Os mundos dentro de mim em mutante processo estético, fecundo, em verso rimado, cada substantivo, verbo e artigo, lado a lado, loucos, entrelaçados aos poucos, em som encadeado.
Do meu “Eu” torno-me turista, nesta viagem altruísta, curando-me no verbo que minha alma ecoa. Acordo amando Fernando Pessoa.
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN
UNI-VERSO
O dia foi em verso
pensando em verso
um modo de entender o universo
e o universo é vasto
é um sentimento
os pensamentos, em fileiras
foram se organizando
e o universo se revelando
em muda escrita
minha língua favorita
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
OS CORPOS
seguem o amor do tempo
os corpos são só momentos
a alma eterna nunca some
já os corpos um dia
serão mortos
e as almas
portos
para outros corpos
LLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL
AFETOS SEM TETOS...
é isso... um estado novo
recém formado...
de afetos desencontrados
que estão aí no teu coração
se debatendo em entrópica dança
afetos em caixinhas
organizados
nos escaninhos da sociedade
afetos de verdade
selecionados por uma rede
pendurados na parede
exacerbados momentos
da alma movimentos
afetos mansos e violentos
afetos sem dor
geradores de calor
buscando um super condutor que lhes dê vazão
YYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYY
O QUE FOI SEM NUNCA TER SIDO
vou fazer uma promessa
prometo não ter mais pressa
e nunca mais cortar o cabelo
enquanto não puder tê-lo
vou ficar sozinha
numa vida só minha
de amor e desvelo
vou ficar me poupando
enquanto o tempo vai passando
na espera de tê-lo
vou ficar em metade
aguardando oportunidade
de ver-te em pelo
vou ficar todo o dia
em serena agonia
espera incessante
RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR
NÃO QUERO AMOR DE LUA
deixas as horas incertas
pões-me em desalinho
deixas-me ave sem ninho
voando sem descanso...
embaça-me a visão
acelera o coração
faz-me adiantar a viagem
não quero outra paisagem
além de teu corpo
absorto no meu
servindo de cenário
que passou por entre o tempo
e não morreu
que seja amor de loucura
não morro ser um dia ser tua
ter o meu corpo no teu
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
A MÃE QUE HOUVE
foi a mãe que te coube
não me perguntes o que houve
é sorte finalmente
é por onde deixas de ser morte
e voltas a ser gente
julgo inconteste
minha decisão
já havias nascido
dentro do meu coração
e, crescido,
agarrado em minha mão
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
LUIZA
és sabia profetiza
analisas a vida
com propriedade
és minha filha querida
parida
na adversidade
quero ser tua mãe
amiga e parceira
te ensinar a ser feiticeira
transformar sonho em realidade
a guia que te levará
a conhecer o mundo
e a inventar a realidade
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN
INTENSIDADE
sou intensidade
momento de pico, ápice
bebo a vida agora
tudo, entorno o cálice
um segundo me é uma hora
vivo diferente da velocidade lá fora
sou esgotamento
rápido, veloz e atroz
por isso, às vezes tormento
vivido não só por mim
por todos após
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
SEPARAÇÃO
disse “adeus!”
peguei meus filhos (os teus)
e depois só desencanto
de lágrimas teci um manto
enquanto os pequenos dormiam
no meu leito de pano e pranto
e fui levando, levando, remando,
te chorando a cada triste noite
fria, gelada, nua, te suando,
ardendo em chagas sem mais o teu açoite
e agora, da derradeira hora
onde já tudo é confesso
(em nosso surreal universo)
observo e vejo, ah, como vejo...
como suspiro, não mais grito
(nem trovejo)
sou no máximo um vento leve
um suave ar em movimento
e, que de nós, humanos sós
sobrou apenas frouxos nós
epiléticos movimentos patéticos
imotivados e sem nexo
usualmente chamados de sexo
LLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL
A TI QUE ME VISITAS EM MEU LEITO RAREFEITO
carreguei-te com todo o cuidado dentro do peito
deitei-me com o coração cortado no meu frio leito
trazia-te imaginado, lindo, perfeito e distante
meu amor errante, irascível, louco e dilacerante
tua luz me invade, doce Marques de Sade, surgido deste abismo
me desvendas, me revelas, me penetras, pelo teu psiquismo
termina a senda desta dor em fenda que arde e me afasta
nada mais me afasta, nem me arrasta, ou deixa-me casta
YYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYY
AMOR PRÓPRIO PARTIDO
aceito-te, mesmo pouco e rarefeito
um amor que poderia ser perfeito
desfaz-se, cresce a cruz, perco o dia
mas insistes, persistes em minha cama
és-me triste, perdido tu, em tua fama
me amas? ou só tu, ainda em chamas?
RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR
BOM DIA!
olhos de manhã de sol de verão
meus olhos de noite se ofuscam
com o teu brilho no esplendor matutino
de teu espetáculo de luz e som
és meu palco de pele onde danço
e sou a mulher de olhos de noite
com cabelos soltos de açoite
apaixonada pelo homem de sol
num encontro proibido
por leis físicas, tísicas e universais,
onde um existe, o outro não mais...
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
“NEURO-POEMA” DE AMOR
queria girar em teus giros
povoados de papiros secretos
abstratos e concretos
do teu intelecto inquieto
passear por teu encéfalo que me espanta
absorve-me e encanta
a cada contato abstrato
que tenho contigo
queria ser imagem nua, crua (e só tua)
povoando seu sistema límbico
queria ser o químico mediador
que estimula o teu hipocampo
preencher-te de encanto
modulando qualquer dor
quem sabe assim, descubra no fim
uma via, um caminho, uma mão
um giro, uma circunvolução
onde possa tatuar com amor
meu nome em teu coração
         
        
       

           
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HÁ LIBERDADE?


Há liberdade em nossos dias? Ou é no movimento livre que o Sol nasce para moldar as formas das sombras. Para Carlos Drummond de Andrade, “O bom é... flutuação sem rumo a não ser do vento, em barco sem barqueiro”. Invertemos a perspectiva e descobrimos novo jeito de somar forças e disputar opiniões, para encontrar na diferença de pensar a liberdade como definição, solução e realização.
Há vários caminhos para buscar a liberdade, e a palavra é das vias mais importantes, porque é de mão dupla: de um lado a palavra é a fala, aquela que desenvolve a imaginação e, do outro, a significação que cada um atribui à palavra. Mário Chamie reflete, “... e o peso da palavra, / que, mal falada, / não dizia / o que dizendo, calava”.
Há liberdade no risco que desliza na tela unindo céu e mar; no papel que expressa a pedra iluminada; na imaginação que desperta o sonho e os sentidos que nos definem. Ela renova o querer, a essência e a palavra na sua irradiação. É tudo o que temos, sem ela seríamos estátuas: obscuridade sem destino, sem lucidez, sem cor e sem a hora do momento. Cada um atribui significado diverso à liberdade, baseado em nossas decisões como imagem construída sobre a história. Oscar Niemayer expressa, “A beleza precisa ser inventada”; Fernando Pessoa, “Viver não é necessário, o que é necessário é criar” e Mia Couto, “Viver? Ora, viver é cumprir os sonhos, esperar notícias”. Não se pode ignorar a dimensão emocional das definições sobre a liberdade e de suas fantasias sobre os desejos e ansiedades.
Há verdade no caminho que nos leva à liberdade de gritar os nomes; sorrir; mergulhar no voo da brisa e, assim, vivermos os dias entre a luz e o destino. Sobre o tema, encontro significados nas obras, Palavra Engajada, de Ronaldo Cagiano e, Poucas Palavras, de Pedro Du Bois, em que eles expressam a liberdade, transformada em inspiração, que ultrapassa as fronteiras do cotidiano.
Há a decisão para nos reconhecermos como autores de nossas vidas; assim alcançamos a liberdade que nos encoraja a recolher os pedaços dos conflitos em meio aos domínios e que nos permitem sair da nossa (in)apropriada sombra. É o coração que guarda a liberdade, memorizada no mistério dos sentimentos. Nas palavras de Oscar Wilde, “A vantagem das emoções é que elas nos / desencaminham”.
Há a liberdade que nos contagia, sobre a qual o dia desliza. Há nossa voz como folhas ao vento. Há a palavra que nos completa. Há a luz para enfrentar as sombras, onde a nossa consciência se espalha. Há lembranças no avesso das nossas vozes, como algo além da paisagem, da promessa e da conversa. Foed Castro Chamma escreve, “... onde habita a voz o encanto habita...”. Encontro a liberdade em Concerto A Quatro Vozes, coletânea poética; em Adriano Espíndola, com A Voz do Urbe; com Antônio Cícero n’A Voz de Eros; em Marco Luchesi, com A Voz do Deserto e, também, em Salgado Maranhão, com A Voz Solar.
Ao encontrarmos a nossa voz, passamos a viver para sermos protagonistas e para sentirmos o amanhã na antecipação das imagens; não mais fugimos à responsabilidade por ela imposta; não mais nos impedimos às mudanças. Em cada pulsação nos permitimos recomeçar a vida em liberdade, onde podemos protagonizar o nosso enredo.

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quarta-feira, 22 de março de 2017

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CALÇADAS - JANDIRA ZANCHI




poentes do dia
    alvissareiros
meigos navios
aportando
nas vagas calçadas

do horizonte.
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sábado, 18 de março de 2017

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ME LEVA PRO VELHO TESTAMENTO




Sim, o mundo estava há milênios da invenção da penicilina. O sujeito nascia e já tinha tudo pra cair duro, mortinho da silva, tamanha era a falta de recursos na saúde e na ciência. No entanto, a "morte morrida" custava demais a chegar. E isso é a Bíblia que atesta. 

Vamos a uma breve relação de patriarcas longevos do Antigo Testamento e a idade em que respectivamente bateram a caçuleta: Adão, 930; Seth, 912; Enos, 905; Cainan, 910; Mahalalel, 895; Jarede, 962; Enoque, 365; Lameque, 777; Noé, 950; Sem, 600; Arpachade, 438; Selá, 433; Éber, 464; Pelegue, 239; Reú, também 239; Serugue, 230; Naor, só 148 - deve ter morrido na creche ou no balão pula-pula; Terá, 205; Abraão, 175; Isaque, 180. Por fim o campeoníssimo Matusalém, que, sem grandes cuidados com a carcaça, chegou à impressionante marca de 969 aninhos.

Fica claro que o modus vivendi pré-diluviano, por mais que se julgue hoje primitivo, era muito mais saudável e contribuía para a longevidade. Não é nem questão de deduzir. É fato, a menos que não se leve a sério a Palavra Sagrada ou que se prove que o tempo passava mais rápido naquela época. 

A comunidade científica estufa o peito e convoca a imprensa para apregoar, orgulhosa, que o homem em breve (e esse em breve não raro significa daqui a uns 50 anos) alcançará 120 como expectativa média de vida. Belo chabu. Com essa idade Matusalém era um feto e o respeitável Mahalalel ainda enchia as fraldas no berço. 

O bicho homem do século 21, com toda a sua expertise em descobrir geringonças e fármacos que o possibilitem viver mais e melhor, nem arranha os recordes etários desses heróis do Gênesis.

É ainda uma incógnita a razão por que, naquele mundo ainda intocado de meu Deus, a decrepitude e a morte custavam tanto a chegar. Uma explicação talvez seja porque a carne dos bois, porcos, ovelhas, bodes, cabras, aves e assemelhados de antanho estivessem a salvo dos conservantes, dos ácidos cancerígenos e demais porcariadas que disfarçam a podridão da carne vencida que comemos - produzida, empacotada com carimbos sanitários fraudulentos e exportada mundo afora pelos nossos grandes, assépticos e incorruptíveis frigoríficos. O bom e velho Cainan conhecia seus bichos de abate e sabia muito bem o que botava em sua mesa. Ele e seus centenários amigos eram os caras. 



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