quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

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Pequenas histórias 264

Lábios que beijei


Lábios que beijei por amor
Lábios que beijei pelo prazer da carne.
Lábios que beijei intensos em noites frias.
Lábios frios que beijei em noites intensas.
Lábios frios insalubres
Lábios insalubres quentes
Lábios quentes descontraídos
Lábios descontraídos malévolos
Lábios malévolos firmes
Lábios firmes de língua
Lábios de língua descobridora

Lábios, ah! Lábios carnudos
Gananciosos de mãos escorregadias
Mãos escorregadias fixos nas partes
Partes que no todo consume a glande

Lábios, ah! Lábios ensandecidos
Escorrega saliva pelo meu corpo
Umedece desejos enrijecidos
Salivando as reentrâncias
Nunca desbravadas

Lábios beijados ou não
Quero os lábios únicos
A saborear meu liquido
Desejo em tê-los


pastorelli


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Uma canção


    
o inverso de um poema
(os seus SeioS)
volta para a música
os OlhOs
se do corAçÃo
é que se dispara o f31x3
para caçar o p31x3
escorpião
   
   

    
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

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TÂNIA

Em ti a antecipação
             do tempo: meteoro
             errante dos destinos
             teus olhos vêem além.

                 Teu o sentido do antes
                 com que te comunicas
      ao anunciar o não acontecido.

            Tens o toque sutil
            dos entreatos
            nas razões diversas
            da racionalidade.

Em ti o corpo completado
em luzes: destino acobertado
deste amante na sagração
em que não te descobres
no que não te interessa saber.

(Pedro Du Bois, inédito)
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BATE bate CORAÇÃO




“Os poetas sabem porque Todas as palavras não dizem nada
quando dizem o que o coração não diz”. (Lígia A. Leivas)

Existe coisas na vida que são impossíveis descrever; porque a emoção em ver alguém que desejo ou senti-lo perto é grandiosa e faz meu coração bater mais e mais forte, como canta Elba Ramalho: “Bate, bate, bate coração / Dentro desse velho peito / você já está acostumado / A ser maltratado, a não ter direitos // Bate, bate, bate coração / Não ligue, deixe quem quiser falar / Porque o que se leva dessa vida, coração / É o amor que a gente tem pra dar...”
Em cada gesto e em cada olhar sinto a mudança e a expectativa de que um dia “nos veremos de novo” e será uma nova emoção. Essa sensação ninguém me tira, apenas a tenho, como em Pixinguinha, “Meu coração, não sei por que / Bate feliz quando te vê / E os meus olhos ficam sorrindo / E pelas ruas vão te seguindo,...// vem matar essa paixão / Que devora o coração / E só assim então serei feliz, / Bem feliz...”.
Em cada lembrança sinto como se você estivesse presente, o que comparo ao raio de Sol, que é a pulsação da pura emoção; como se estivesse num campo com trigo, com dourado reflexo e o vento tocasse meu corpo. Carmen Presotto descreve, “Essa tua voz macia / que ao cantar me acaricia /... aí coração, bate / brinca canta ama / faz alarde, seduz...”.
Marina Du Bois pergunta “De quem foi a ideia de deixar-nos ter recordações? Especialmente aquelas que se avivam com um cheiro, uma canção, um lugar, uma palavra. Estas deveriam ser banidas, pois são crimes hediondos, tamanha é a dor por ela causada. Talvez a culpa seja nossa. Sim minha, sua e de todos aqueles que amam ou amaram, ou ainda, foram amados...” Trago a emoção em cada batida do coração, mas me é difícil descrever o quanto cada palavra dita, rescrita é luz e liberdade. Marina Du Bois, ainda: “Teu amor / me faz forte e/ me enfraquece. / Descompassa o meu coração / ao mesmo tempo que o enternece. / ...só de pensar me dá um frio / e, neste momento, nem sinto mais / os meus batimentos...”
Quantas vezes meu coração “fala” mais alto que a razão, quando não está preparado emocionalmente ou nem pensa em desejar o amor com tamanho grau de grandiosidade? O pensamento leva à emoção, que me renova as lembranças e altera as batidas do coração, que ele manda e comanda os meus atos. Horácio Costa revela, “No ritmo da minha pulsação / Que sobre o vazio penso / Em ti”.
Meu coração bate mais forte quando escuto razões para amar e ser amada. Poder rever o amado, ser vista e lembrada é das mais fortes emoções. Cada minuto que revivo são horas de sentidos e sentimentos. Nas palavras de Lúcia P. Góes, “Bate , coração, bate // Minha gente, / eu sou o coração / que bate, bate, /...que faz viver, / que faz sonhar, / que faz amar, / ...que apressa o coração, / meu tic- tac danado, / que é desejo acelerado / de viver pra sempre / junto do amado...”
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sábado, 3 de dezembro de 2016

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Pequenas histórias 263

Sou o sonho



Sou o sonho das palavras que em teu corpo escrevo meus desejos Sou a escrita nas pautas brancas nos pelos do teu sentimento
Sou a voz nos escombros da cidade ecoando pelas esquinas soturnas
Sou a luz do cego trôpego perambulando nas sombras do teu corpo

Sou o doce sabor escorrendo nas curvas das tuas costas
Sou a língua perigosa lambendo teus meandros fabulosos
Sou os beijos lânguidos em teus pelos finos e sedosos
Sou o úmido tato a enroscar nos teus pelos pubianos

Sou o falo intumescido na tua carne febril de desejos
Sou o liquido da vida umedecendo teu interior de vida
Sou a paixão de corpos unidos no suor da satisfação

Sou o que nem sempre somos e únicos somos tudo
Sou o que somos encarando o nada de sermos nós
Sou você sendo eu num só momento de sermos únicos

pastorelli
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

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ENTREVISTA COM O POETA SÉRGIO ARAL


Sérgio Aral é paulistano, nasceu em 1968, ele é autor do livro de contos Até a esquina e meia-volta (VirtualBooks, 2010), também participou da coletânea de contos  Retalhos (Andross, 2007), o autor acaba de estrear na poesia com o livro Sobre Essa Esfera Suspensa (Penalux), este foi o mote deste papo.

Sérgio, há uma avalanche de autores precoces, alguns publicando com menos de 20 anos, comparado com muitos deles, podemos dizer que você estreou tardiamente, na literatura. Quais ilusões são/foram evitadas por ti em relação ao universo literário?

Acho bom ter sim ilusões em relação à literatura, mas manter os pés no chão é importante para poder enxergar com nitidez a realidade e evitar alguns desenganos. Cada um deve estabelecer seu objetivo. A proposta da Editora Penalux, com edição muito bem trabalhada e com tiragem adequada para o lançamento do livro e divulgação inicial, veio ao encontro daquilo que eu pretendia. Fiquei cinco anos sem escrever e, por isso, minha preocupação agora é colocar a literatura no bate-bate do meu dia a dia.

No primeiro contato com Sobre Essa Esfera Suspensa, um dos pontos que saltam aos olhos, são as epígrafes que usam versos de autores contemporâneos (Nathan Sousa, Valério Oliveira). Como a leitura dos poetas do nosso tempo potencializam a sua escrita?

Apesar da inegável qualidade literária com a qual esses autores nos presenteiam, o uso das epígrafes foi mesmo por uma questão de oportunidade. Estava lendo seus livros no período de criação ou revisão dos poemas. Se tivesse lendo Drummond, João Cabral ou Miguel Torga, talvez extraísse algo deles também.

Poesia mansa/ azul/ boa vizinhança/ cerveja gelada/ melhores amigos... por meio desses versos do poema Suposição, entre outros, podemos dizer que a poesia está à espreita, esperando para dar  o bote e florescer nas frestas do cotidiano?

Acho que sim. A maleabilidade da poesia não está só em sua forma. Na essência, ela também pode acariciar, espicaçar, surpreender. Sendo o cotidiano uma vertente torrencial para todas as possibilidades, como não aproveitar a chance para beber de sua fonte?
Nos poemas Diluído e Tudo há uma perfeita descrição daquilo que Clarice Lispector chamou de instante-já. A usurpação da noção de tempo é estética ou mística em sua poética?
Sinto-me feliz por essa alusão. Confesso que não tive essa preocupação na elaboração desses textos. Mas em Tudo (ou em quase todos) há mesmo uma inclinação mística.

As lacunas são retocadas/ com metodologia antiga. Sérgio, uma das características dos seus poemas é certo estilo lacônico. Como teve acesso a esta metodologia?

No início, meu propósito era escrever poemas de versos curtos, com duas ou três palavras, como por exemplo, se vê nos poemas Nadar no vazio e Magnética. Já tinha produzido vários poemas quando tive contato com o livro de Susanna Busato, Corpos em cena. Acho que este livro suscitou-me algo que contribuiu para continuar por esse caminho.

No poema Havia o tédio parece haver uma aproximação entre a criação do planeta e o fazer poético. Somente no tédio reside o poder de criação?

Ótima pergunta, que bem poderia ser um verso de abertura ou um desfecho de poema. Quando uma pessoa se sente entediada, há margem para reação porque o tédio é um quartinho de despejo, onde se deposita coisas que, naquele momento, não tem serventia. Se ao seu redor não existe nada que se possa aproveitar, você está num deserto. Eis o momento!

A divisão dos quatro capítulos do livro (Os ventos, Agulha vacilante, Rumos colaterais e Possível chegada), assim como alguns poemas, faz referência ao itinerário do humano dentro na Terra, conforme destacou na orelha Edmar Monteiro Filho, do nascimento à indiferença rumo à morte, a poesia é só uma distração no meio do caminho?

Já ouvi por aí que a poesia pode ser tudo: derrocada e libertação. Penso, então, que se tiver de ser apenas uma distração, que seja. Vejo pelo lado bom, pois alguém, de alguma forma, estará se envolvendo com a poesia. E lembrar do título do livro do Leminski, Distraídos venceremos, agrada ainda mais.
Existe possibilidade de fugir da ilusão que nos move a acreditar que tudo então será possível?

Acho que não, porque parece mais confortável ter uma saída de emergência sempre à vista, uma possibilidade de recomeço a cada frustração, do que não haver expectativa alguma.

Por que ler Sérgio Aral?


Apesar de conseguir despertar de um sono e retomar a aventura Sobre essa esfera suspensa, estou colhendo aos poucos os motivos para essa leitura. Certeza, pelo menos para mim, que a atenção dispensada pelo escritor Fernando Rocha já é um bom motivo.




Contato: sergioaral17@gmail.com

No facebook: /sergioaral.miranda






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QUIXOTE MODERNO S/A



- Recebemos uma denúncia de Quixote Moderno S/A, que o acusa de extrair mogno nativo para confecção de seus bonecos de ventríloquo.
- Ah, então foram eles... nada me espanta, vindo dessa gente. Essa Quixote Moderno S/A não tem autoridade moral para denunciar e nem acusar ninguém. Seu imenso latifúndio de geradores eólicos provocou uma catástrofe ambiental na região, e nada de punição até hoje. Teve até uma turma do Greenpeace fazendo protestos e se amarrando às hélices dos moinhos. Ou melhor, dos aerogeradores. Todos viram, deu no Jornal Nacional semana passada. E os responsáveis aí, soltos. Eles me perseguem porque um dos meus bonecos deu a entender, em um programa de auditório, que a Quixote Moderno é uma verdadeira desgraça ambiental. Depois disso eles botaram detetive atrás de mim, para flagrar qualquer passo em falso e destruir minha reputação. 
- O erro da Quixote Moderno não justifica a ilegalidade cometida pelo senhor. Essa questão não vem ao caso.
- Mas o meu delito é pequeno demais perto do crime ecológico deles. Para fazer seu fabuloso parque de 9.000 geradores, em duas semanas foram para o chão 5.700 hectares de mata que a natureza levou milênios para formar. Várias espécies de animais e plantas foram extintas e até o clima foi afetado por aqui. E vocês me enchendo a paciência por causa dos meus bonecos!
- Se tantas árvores foram derrubadas para montar o latifúndio eólico, por que o senhor não as aproveitou como matéria-prima de suas criaturas?
- Ah, então quer dizer que se eu me servisse das toras ceifadas criminosamente estaria tudo certo? Olha, na época da devastação eu até pensei em pedir um ou outro toco para a Quixote Moderno. Mas minha produção de bonecos é tão pequena, mas tão pequena que fiquei até envergonhado. Forneço meus bonecos para ventríloquos de circos, teatros e TVs de todo o Mercosul, mas mesmo assim são pouquíssimas unidades. O ventriloquismo não encanta mais as crianças de hoje. Sem falar que a Quixote Moderno só venderia aquela quantidade colossal de madeira a quem levasse tudo de uma vez, para desocupar rapidamente a área. E pagando uma fortuna, é lógico.
- Entendo o seu ponto de vista. Mas se por um lado eles exterminaram um patrimônio florestal enorme, por outro eles se redimem produzindo energia limpa, gerada pelo vento.
- O senhor está defendendo aqueles criminosos? Quanto é que está levando nisso, heim?
- Faça o favor de me respeitar, posso prendê-lo.
- Então, não perde tempo. Melhor me prender agora, porque se eu sair daqui vou correndo fazer dois novos bonecos de ventríloquo - um com a sua cara e outro com a cara do CEO da Quixote Moderno. E nem queira o senhor saber as falas que eu vou botar na boca de vocês dois!
- Ô Denilson!...
- Pois não, Dr. Sancho.
- Liga pra Quixote Moderno, diz que o homem tá aqui comigo e que eu estou aguardando instruções.
- Sim senhor, Dr. Sancho.


Imagem: mad-intelligence.com
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