quarta-feira, 31 de agosto de 2016

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QUAL É O NOSSO LIMITE?





Esta pergunta provocativa norteia a nossa vida. O desejo é o mais consciente sentimento ao tecer a teia de expectativas, que aos poucos vai se alastrando em nossa alma até alcançar ou ultrapassar o nosso limite.
Faço desta pergunta o mote para as intervenções; com ousadia, endosso as artes, por exemplo: o compositor Noel Rosa, pela excelência de suas letras e músicas e, por sua postura inquieta, explorou ao máximo os recursos da tecnologia – no caso, o rádio – para levar a sua produção ao maior número de pessoas; chegou ao seu limite quando foi considerado o patrono da inovação na arte brasileira.
Algumas pessoas são metamorfoses ambulantes, em busca de seus limites elas se tornam incomparáveis e quebram paradigmas em áreas que transcendem ao cotidiano, o que se dá por razões que nos permite arcar com alto grau de visibilidade e criatividade. Assim, é possível meditar sobre o que mudaria a nossa visão de mundo, para saber qual é o nosso limite.
O escritor é quem demonstra o limite de forma criativa e brilhante, por que é a perfeição do artista que faz referências às épocas e fatos, mostrando os rastros do tempo ao espalhar suas palavras ao vento; e o seu limite, no modo com que representa os símbolos da linguagem: atemporais e universais. Nesse sentido, a descrição e a composição vêm acompanhadas da solidão, que está ancorada na imaginação pela feição literária. Encontro Manuel de Barros que explora o simples e tem por limite transgredir na poesia, como em “Desbiografias // Bernardo morava de luxúria com a sua lesma. / Não era fácil ficar ao seu lado sem receber algum contexto de lesma. / Nossa linguagem não tinha função explicativa – mas só brincativa. / Tipo assim: Eu vi uma pedra emocionada de borboletas... ////... A gente queria com as nossas visões afastar do bom senso o que fosse racional. / E cair no absurdo que faz a beleza da poesia: tipo assim: Nós vimos um sapo ajoelhado / no próprio abandono -...”.
Até que ponto temos consciência de que estamos em nosso limite? Talvez o pensamento expresse a construção e a desconstrução das palavras, dos sentidos, enfim, de viver e exercer a nossa humanidade. Penso que o nosso limite está atrelado às inúmeras páginas de experiências e rascunhos de ideias, que podem reescrever os mistérios da vida.
Criar é um dos segredos para a constante mistura de satisfação e limite, que nos consome com a certeza de mudar a realidade (tão complicada que ela é). A realidade que, ao mesmo tempo, nos provoca exaltação e, definitivamente, não a podemos conceber na vida sem sermos abraçados pelos limites.
Para saber qual é o nosso limite, basta não desistirmos dos ideais e das ideias, porque é na diferença que crescemos, transformamos e percorremos as obras literárias, que nos fascinam por ultrapassarem o nosso cotidiano ao misturar vozes que tecem e entrelaçam as trajetórias sem limites.
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Pequenas histórias 240

Palavras procuram

...palavras procuram palavras cujas palavras com palavras vai dar a ideia que as palavras devem dar numa continuidade sem precedentes na imaginação do autor onde ele imprime palavras mais nada que palavras surgidas em continuo metabolismo pensativo rasgando os infinitos da mente ao arrancar lá dos cafundós do subconsciente palavras nada mais que palavras símbolos gráficos determinados pelo homem para que pudessem exprimir seus sentimentos inquietações e angustias e frustrações milenar passada de filho para filho desde que o homem é homem e continuará até que a humanidade venha sofrer o perigo de extinção por não dar bola as palavras ditas por séculos e séculos de vivência musical artística e teatral num palco molambento esquecendo-se da aprendizagem sanguínea herdada pelos pais cuja sobrevivência fez com que chegássemos onde estamos e num piscar de olhos poremos em perigo todo nosso ensinamento numa cédula eletrônica dando chance para que ladrões continuem se aproveitando das mazelas do povão que não tem condições de agirem por conta própria se aliando a malfeitores do colarinho branco acomodados em poltronas enchendo cada vez mais seus bolsos excluindo famintos desgraçados que nem sabe o que é a palavra quanto mais o que é um voto comprado ou não e que na esperança de ter um futuro promissor vota no primeiro cheio de promessas utópicas acreditando que terá um vida melhor ignorando ou não sabendo dos proveitosos da esperteza preferindo viver na mendicância cômoda acumulando centavos por centavos no dia a dia nosso de cada um...


pastorelli


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sábado, 27 de agosto de 2016

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PORTAS

Portos
seguros
em si
abertos
aos barcos
que abarcam
suas águas
e deságuam
em línguas estrangeiras
                   o inteiro teor
                   em que estranhamos
                   a vinda
                   a vida
                   na ávida razão
                   para estarem aqui.

(Pedro Du Bois, inédito)
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ABRIDORES E FECHADORES



- Quando eu entrei por concurso no serviço federal, acumulava função. Olha o absurdo! Naquele tempo, quem abria tinha que fechar a porta também. Era uma escravidão, a gente ficava sobrecarregado. Depois de muita luta do sindicato, conseguimos criar a função comissionada de fechador de porta. Mas antes, não era mole. Tinha dia que encarava três, quatro maçanetas no horário do expediente. Dá pra imaginar? Chegava esgotado em casa, queridão. Só de lembrar daquela época, já me ataca a gastrite.

- Tenha dó, não queria estar na sua pele. Quatro maçanetas pra abrir num dia só, tem que ter Jesus na causa. É a treva.

- E além do desumano desgaste físico, já reivindicávamos mais segurança no desempenho da função. Isso sempre esteve na pauta da categoria. E convenhamos: nós, abridores, estamos muito mais expostos a riscos do que vocês, fechadores. É quando a autoridade entra em um ambiente novo que o risco é maior. Quando está saindo do recinto é tudo mais fácil. O evento, a audiência, a recepção ou sei lá o quê, já foi. É a hora da dispersão, se tivesse que ter algum atentado, já era pra ter acontecido. 

- Não acho, não. O risco é o mesmo. Nosso adicional de insalubridade tinha que ser igual ao dos abridores. Isonomia já!! E tem outra, que o senhor está esquecendo: o que mais acontece por aqui é reunião a portas fechadas. E aí quem tem que dar conta de hora extra atrás de hora extra, varando conchavo de madrugada sem pregar o olho, são os tontos dos fechadores. Vocês, abridores, já estão em casa faz tempo. 

- E a culpa é nossa? É o descanso dos guerreiros, meu amigo. Nós merecemos. Quantas vezes fizemos piquete na porta do Alvorada reivindicando puxadores de porta ergonômicos, para prevenir LER? E quantas vezes acampamos na porta da Presidência do Senado fazendo campanha pelo fim das portas automáticas, que tanto ameaçam o digno exercício da nossa função?

- E continuam ameaçando, né... Aquele senador, como é mesmo o nome dele? Vive falando lá na tribuna que a nossa função não tem cabimento, não tem amparo constitucional, não tem isso, não tem aquilo. Pois não é que o Dodô, o sub-tesoureiro do sindicato, levantou a ficha do bacana e descobriu que ele tem uma fábrica de sensores de presença, em Diamantina? Tá explicado o interesse do cara em querer acabar com a gente. Se ele ganha licitação pra automatizar portas, imagina quanto vai faturar só no Palácio do Planalto!!!

- Pensa que somos figuras decorativas. Imagina o Presidente da República, da Câmara ou do Senado ter que ficar abrindo e fechando portas por onde passa, e a vergonha para o país em ter essas imagens veiculadas pela mídia internacional! E no dia em que faltar energia elétrica? Serão centenas de portas que não abrem e  nem fecham.

- E nós, aposentados compulsoriamente, não estaremos lá pra resolver a parada. Aí sim é que eu quero ver!

- Não é só isso. Veja, por exemplo, a tal H1N1, essa gripe que vira e mexe ameaça todo mundo. Maçaneta de porta é um verdadeiro depósito desse vírus aí, e é mais um risco de vida que corremos. Tinham que criar a função de passador de álcool gel, para desinfetar tudo antes da gente chegar com a comitiva. 

- Escutou? Acho que estão batendo na porta. Será que tinha alguém escutando a nossa conversa?

- Abre logo de uma vez.

- Quem tem que abrir é você. Eu só fecho, esqueceu?





© Direitos Reservados

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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

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Pequenas histórias 239


Assustou-se

Assustou-se porque ao seu lado, o garçom com um bloco e uma caneta, esperava o pedido. Assustou-se, não esperava que fosse tão prontamente atendido. Olhou para o cardápio meio que indeciso. O que pediria? Olhou para cima. Viu a cara do garçom numa perspectiva estranha que, indiferente, apenas esperava. Ele estava ali para isso. Esperar demorasse ou não. Ele era paciente. Foi treinado para isso: ser paciente. Nunca se alterar. Nunca erguer a voz, estivesse ou não com razão. Aliás, ele não tinha razão nenhuma, só os fregueses é que tinham razão. Esse era o lema da casa, o qual foi extensivamente recomendado pelo chefe.
Assustou-se, realmente, tinha que se assustar.  Distraído, pensando na vida ou, como dizia sua mãe, pensando na morte da bezerra, não percebeu a aproximação do garçom. Assustou-se, pois ao erguer os olhos, deparou com a cara amarfanhada, uma cara de destroços esquisitos. Mas tudo bem fez o pedido com a voz empossada. Sentia um prazer em mandar. Pediu enfatizando cada palavra num deslizar de letras pronunciando-as bem devagar. Tinha gosto de se fazer notar que, ele, possuía mais educação do que o garçom. Este conhecia esses tipos de nariz arrebitado e que não tinha um cão para puxar pelo rabo, como dizia seu pai. No principio, quando começou a se aperfeiçoar como garçom, ficava de uma maneira irritado, depressivo, mas com o correr do tempo, não dava mais pelota. Desprezava todo e qualquer tipo de pessoas esnobes.
Entrou na cozinha. Passou o pedido para o assistente.
- José já tenho o prato pronto. Não quer levar esse?
José indiferente pegou o prato e levou ao freguês de nariz arrebitado.
- Com licença, senhor.
- Nossa que rapidez.
Assim que ajeitou tudo sobre a mesa, cordialmente perguntou:
- Mais alguma coisa, senhor?
- Sim, mais uma coisa, por favor.
- Pois não, senhor.
- Suma da minha vista, não apareça mais aqui, nem para trazer a conta.
- Pois não senhor, o senhor é que manda.
Suspirou achando-se livre do garçom. Desviou os olhos para o prato e já começava a saborear a comida quando, sentiu uma pancada na altura do pescoço. Um frio cortante rasgou de um lado para o outro a garganta. O frio invadiu suas células paralisando-o. Num esguicho o sangue inundou o prato, a toalha branca ao mesmo tempo em que o corpo caiu por cima do prato esparramando tudo.
Sem se perturbar com os gritos, a balbúrdia, arrancou a gravata borboleta, o paletó ridículo e jogou tudo em cima do morto caído sobre o prato. Sentindo-se aliviado, saiu do restaurante. Ao chegar à calçada, suspirou:
- Como seria bom se no mundo não houvesse pessoas como aquele desgraçado.
Virou à esquerda, se embrenhou na escuridão, enquanto ao longe se ouvia a sirene da policia.


Pastorelli
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domingo, 21 de agosto de 2016

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PAIXÃO

Na resposta
repousa impávida
a verdade

- tenho medo: reduzido
  ao pouco da pergunta

a morte silencia o corpo
na resposta abreviada pelo tempo

na tensão explícita
deixo de ouvir o arrazoado
da palavra apaixonada.

(Pedro Du Bois, inédito)
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quebra-cabeças

Yin:
           
 Yang:






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