segunda-feira, 24 de abril de 2017

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CONTAGENS – JANDIRA ZANCHI

Ilustração: Victor Bregeda



crua/indigesta maciez de amenidades fantasiosas
indecorosas indecifráveis – ferramentas de pouco uso
nessas tardes de muito siso/sânscrito
salgado dessas
                             impertinências

amorável amplitude nos gestos
(factuais e deserdados)

de prantos
de lírios
de espantos
de desejos
de bocejos

boquiabertos frente ao nulo espetáculo

das pequenas contagens de tempo.


JANDIRA ZANCHI
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sábado, 22 de abril de 2017

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CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA DO SALVA-VIDAS






- Pronto, Centro de Valorização da Vida do Salva-Vidas – CVVSV. Por favor, seja breve pois nossas linhas estão congestionadas.
- Tô sem vidas pra salvar. Antes tivesse cem vidas pra salvar, tá me entendendo?
- Entendo sim. E como entendo. Você é o décimo sexto que liga hoje. Ontem foram trinta e cinco.
- Ninguém tá precisando ter a vida salva, moça. Mar calmo, banhistas felizes com Sundown 45 besuntado até no cofrinho, nenhum desavisado se debatendo na rebentação. Um tédio. Gosto de viver perigosamente, pra isso escolhi essa vida de salvar a vida dos outros.
- Relaxe, pense que poderia ser pior. E se tivesse que resgatar dez vovôs gordos e sem preparo físico se afogando ao mesmo tempo? Daqueles que levam melancia, torta de sardinha e papagaio pra praia, já pensou?
- Mas pelo menos eu me sentiria útil, ainda que conseguisse salvar um gordo só. Bem ou mal estaria honrando o salário no fim do mês. O duro é ficar tomando sol o dia todo naquela cadeira em cima da escada. Me sinto um usurpador, um verme sem serventia, um chupim do orçamento da prefeitura. A senhora, como contribuinte, não se sente explorada? Por favor, me ajude, faça alguma coisa.
- Meu amigo, por acaso a culpa é sua se está tudo bem? Você saberá cumprir o seu dever, caso aconteça alguma coisa. Por que você não faz um curso de aperfeiçoamento, um módulo mais avançado pra sua função? Sei lá, ou então abra-se a novas possibilidades de relacionamento... uma respiração boca-a-boca com alguém atraente do sexo oposto, sabe como é, salva-vidas também é gente.
- Sei, sei. Vem ver as coisas que me aparecem pra salvar, vem ver. Isso quando aparece, né. A praia aqui é de periferia, minha filha. É a maior relação dentadura por banhista da América Latina.
- Você também podia pedir transferência pra algum lugar com mar mais agitado, tipo aquelas praias de surfistas em Saquarema.
- Mais alguma alternativa?
- Temos sugerido com frequência a pintura de paisagens marinhas em aquarela. O único problema é o salva-vidas se distrair demais com o hobby e não prestar atenção ao serviço.
- Chega, essa foi sua última chance. Não me convenceu, o buraco no meu caso é mais embaixo.
- Pelo amor de Deus, mude de ideia. Se não por você, pelo menos por mim.
- Como assim?
- Nosso índice de reversão das tentativas de suicídio nos últimos seis meses é de apenas 4,9%. Caso não consigamos melhorar esta estatística, nossa equipe toda será demitida. Você não está mesmo querendo salvar vidas? Pois então, sua oportunidade é agora. Salve a nossa, moço!
- Jura que é verdade? Não está dizendo isso só pra dar uma levantada na minha autoestima? Este argumento está me cheirando a script decorado aí da equipe de atendimento.
- Onde você está no momento?
- Estou aqui, no meu posto de observação, falando do celular. Mas com um cano de revólver enfiado no outro ouvido. Tem até um pessoal lá embaixo olhando desconfiado pra mim.
- Calma, segura a onda.
- Bom, isso é tudo o que eu queria, se houvesse alguma pra segurar.
- Moço, olhe pra trás. Guardas-noturnos, ex-boxeadores, enroladores de bobinas de transformador, mulheres barbadas de circo e outros suicidas contumazes bem que gostariam de estar no seu lugar, só aí, de frente pro mar... considere-se um privilegiado.
- Poupe o seu latim para um caso menos perdido que o meu. Além do mais, meu crédito está acabando.
- Me dá seu número que eu ligo!
- Vai dar caixa postal.


© Direitos Reservados
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sexta-feira, 21 de abril de 2017

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ANTES DO PARTO



Eva, este nome que minha mãe me deu é tão estranho, ainda me lembro daquelas piadinhas sem graça da época de escola:
- Cadê o seu Adão, Eva?
- Não vai sair peladona por aí!
Quando a gente ouve algo na tevê parece que não é verdade, mas a tal crise me parece real agora. Ontem, fui demitida, todo aquele papinho de corte de gastos na empresa por parte do patrão é balela, os filhos dele continuam estudando fora do país, quando a esposa passava pelo escritório, sempre estava com sacolas de lojas caras, corte de gastos, bem sei...
Vou voltar a fazer pães de mel por enquanto, ao menos entra uma graninha extra, nunca sei quando Pedro vai atrasar a pensão dos meninos, não sei como pode sair por aí, parar numa padaria, tomar uma cerveja comer um lanche e por nenhum segundo pensar se os filhos têm algo para comer. Da última vez que veio aqui, ainda mandou aquele papinho de matar a saudade. Saudades do quê, cara pálida? Daquela cueca caprichosamente manchada com uma gota de urina, da afobação seguida de ejaculação precoce, do hálito de cachaça. O amor, ah o amor, droga que deixa a gente mais zumbi do que aquele pessoal da Cracolândia!
Há um tempo não me olho no espelho, ando fugindo dos olhos que vejo no meu rosto lá dentro, eles me assustam, me fazem lembrar de que o tempo passou como um caminhão, eu era a passageira que não percebeu o abrir da porta e acabou arrastada até aqui, este lugar que chamam de presente, não sei quem foi que deu, mas pode pegar de volta, nem vou dizer muito obrigado.
Ainda bem que hoje minha mãe foi pegar os meninos na escola, ela quer ficar a tarde inteira com eles, preencher o tempo e o silêncio da vida, depois que meu pai morreu, ela ficou ilhada num sem saber o que fazer com si mesma.
Acho que vou tomar uma cerveja, saio um pouco de mim, quem sabe esqueço o endereço e nunca mais volto. O vizinho da frente me olha, estou quase certa de que me deseja, ando com uma vontade de me sentir viva: mulher. Mas é melhor me controlar, ele é meio garotão, deve ser um boca aberta que eleva os fatos ao cubo para depois compartilhar as aventuras com outros mentirosos.
Me deu vontade de tomar um banho, está quente hoje, até parece um dia de verão, este outono e suas folhas, pareço aquele tal de Sísifo, as vezes a vassoura é tão pesada quanto uma rocha. Lembrei da minha infância, as mãos da minha mãe correndo levemente, pelos meus cabelos, uma sensação de carinho e cuidado que nunca mais obtive, apenas uma simulação que tinha como alvo certo a cama dos pais do Davi, que se fingiu de carinhoso, me chamou para ouvir música, bebemos um vinho que tinha por lá, ele com 19, eu com 15. Depois de um mês, ele disse que eu tinha entendido errado, que nunca tínhamos namorado, era apenas um lance.
O espelho embaçado pelo vapor do chuveiro, minhas mãos molhadas, sobre os olhos ainda resta espuma de xampu, com movimentos circulares abro caminho, espirais, dentro do último círculo esculpido pela minha mão esquerda encontro meus olhos, parecem independentes do resto do rosto. Será que foram estes mesmos olhos que se alegraram quando enxergaram nos meninos a recompensa das dores de antes do parto?  


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sábado, 15 de abril de 2017

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O ATAQUE DAS FORMIGAS ASSASSINAS



Um novo tipo de golpe baixo anda roubando o sono dos empresários. Dos grandes, médios, pequenos e até dos MEIs. Trata-se do já famoso e polêmico marketing multinível, também conhecido como pirâmide, só que aplicado à difamação. À mais instantânea e eficaz difamação. 

Embora exija um certo rigor logístico, o funcionamento é basicamente simples. O entrante elege o concorrente que mais o incomoda em sua área de atuação, elenca um rol de calúnias a seu respeito e passa a fazer parte da "engrenagem", digamos assim. 

Na qualidade de noviço no esquema, o indivíduo terá como tarefa inicial destruir a imagem de aproximadamente 120 produtos ou serviços, via mensagens enviadas aos serviços de proteção ao consumidor. É o trabalho braçal das "formiguinhas" que compõem a base. Feito isso, aguardará uns três meses até que chegue ao topo da pirâmide e seja a vez do extermínio do seu concorrente de mercado, quando centenas de milhares de supostos consumidores insatisfeitos entrarão simultaneamente no "Reclame Aqui" e congêneres com quatro pedras na mão e ávidos por linchar o seu desafeto comercial. 

O sistema conta com uma base de quase 500.000 integrantes. Cada um deles com o seu IP, que é o que dará legitimidade estatística à coisa. É a fraude perfeita, não tem como dar errado. A exemplo de toda pirâmide bem arquitetada, o sujeito entra realmente comprometido em fazer sua parte porque sonha com a contrapartida quando chegar ao topo. É o gostinho da sabotagem que alavanca o processo, e tudo acaba funcionando com a precisão de um relógio suíço.

Outra segurança importante é que, mesmo sendo falsos, os relatos não parecerão forjados, pois as reclamações terão estilos diferentes. Cada  participante receberá instruções orientando quanto aos pontos que deverão ser criticados, escrevendo à sua maneira.

O poder de destruição é incomensurável. Por mais que a empresa-vítima apresente desenvoltura de defesa, o ataque em massa de “clientes lesados” arrebenta a sua imagem da noite para o dia. Como o que cai na internet jamais desaparece, o dano à marca é tamanho que é mais fácil começar do zero do que tentar juntar os cacos. 


*Esta é uma obra de ficção. Por enquanto.




© Direitos Reservados

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O REGRESSO


“Aprendo a voltar / e me perco / em recordações: / os passados / petrificados / em passos / os retornos / fechados / em acasos // aprendo ser a volta / pior encontro // o rasgo instantâneo / do corpo / ao mistério” (Pedro Du Bois)

O desafio em voltar está em entender as razões que me levaram embora, e as dificuldades que atravesso em sucessivas horas, como as palavras do poeta à epígrafe. Nesse desassossego encontro a voz que representa o arrependimento e os desacertos. Então, sigo na esperança de que as lembranças, os gritos, o silêncio e as palavras retornem na certeza do caminho a ser trilhado; como em Maria Hilda De J. Alão, “... voltaste, confiante do perdão, para o ninho, / antes desprezado.../ encontraste-me diferente, / pois encontrei a paz de espírito perdida, / e fiz da razão meu baluarte de vida...”
Ao regressar estendo os passos e os transcrevo em palavras: o beijo, a saudade, a voz, o olhar e as folhas de outono. Porém, trago as incertezas, os endereços desaparecidos, as janelas vazias e as portas fechadas. Começo aprender a voltar, quando me vejo cercada da poeira que simboliza o tempo e a lembrança trazidos pelo vento. Segundo Luiz Fernandes da Silva, “Trago dentro de mim / o eco de todas as tuas palavras / e as cicatrizes de tuas lembranças. //... Trago dentro de mim / o teu retrato amarelado / dentro do álbum / onde estão presos / os nossos remorsos / e a esperança...”
A volta aumenta a minha sensação desconexa, porque não vejo, não escuto, mas sinto a luz e o vento em contentes momentos de reencontro na descoberta do sentido da vida: o amor.
Percebo que regresso de caminhos variados: distância, sentimento, atraso, passagem, persistência e verdade, que o reencontro é imagens trazidas comigo, projetadas de dentro para fora e reveladas no momento da entrega.
Posso na liberdade da escolha, ter a certeza de repetir os fatos e voltar para onde enredei o amor na lembrança, e cristalizei os motivos que me fizeram regressar à vida. Em passos silenciosos, recorro ao tempo para encurtar a distância e seguir o caminho traçado para o regresso. Nas palavras de Benedito C. Silva, “Confesso / Passei do tom. / Exagerei. / Errei a hora - / Você me deixou! / Agora, / Espero ansiosamente pela sua volta!”. Encontro em Pedro Maciel, “Retornar com os Pássaros”, é um romance que foge a estrutura convencional, “ ...Vislumbro coisas invisíveis. Quero o que era infinito. Retorno com os pássaros...Nem sempre regresso de minhas viagens”.

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segunda-feira, 10 de abril de 2017

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Composição a partir de fragmentos


             
Esta é uma simples composição a partir de fragmentos do romance Enquanto Deus Não Está Olhando, de Débora Ferraz. O livro de 368 páginas, publicado em sua primeira edição pela Editora Record, foi o vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2014. Espero que este texto ajude a divulgar o romance, cuja leitura vale muito à pena!
            
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Quando meu pai foi embora, a casa, subitamente, tornou-se obsoleta. Como se a decoração estivesse, agora, completamente fora de moda. Não faz sentido. Foi só uma semana, meu Deus! E nessa semana a casa tinha se tornado um mausoléu. Eu caminhava meio cabreira dentro dela. Ficou inexplicavelmente escura, como se tivesse mudado e o sol já não entrasse mais pela janela. (página 28)

A vontade de chorar vinha o tempo inteiro ultimamente, e por um segundo pensei: Meu pai se transformou em dígitos. Espalhado no inventário da casa, no valor do sedã que ficou na garagem, em contas espalhadas no Fundo de Garantia, na minha conta, na conta da minha mãe, na conta do meu irmão. Meu pai se depositaria distribuído em 50% para a esposa, 25% para cada um dos filhos, em parcelas. De vários pontos, em números reais positivos em umas partes, negativos em outras. Meu pai transformou-se em números, como em um tolo espetáculo de mágico amador que não sabia desfazer o truque. Olhei para o advogado querendo dizer-lhe: “Moço.” Então lhe olharia atencioso com seus papéis miraculosos e eu pediria: “Não podemos transformar esses números em meu pai, de novo?” (página 143)

Eu queria voltar ao ponto no qual o deixei sozinho e dizer-lhe: são laços delicados, pai. Rompem e ficam irrecuperáveis do dia pra noite. Nosso abandono precede o nosso encontro. Vem tudo de antes, muito antes, de nós dois. (página 119)

Eu era incapaz de chegar a um lugar e dizer o que eu queria. Sempre envolvida pelas possibilidades de estar querendo – ou acreditando querer – a coisa errada. Sempre que eu ia a uma lanchonete com o meu pai, eu precisava ver o cardápio inteiro, todas as vitrines de bolos, ponderando, desesperadamente, sobre as opções. Ele sempre se impacientava com isso. Em lanchonetes, ele caminhava decidido ao balcão e, sem perguntar o que serviam, sem ter em mãos o cardápio, pedia: Um misto quente e um café. Ele não se preocupava com as opções. E por que deveria? Eu é que tive opções demais na vida. Ele, não. Ele sabia o que queria. Adaptou-se ao fato de que qualquer birosca ofereceria misto quente e café. Ele teve uma só possibilidade.
 – Tem que ser simples – ele dizia. (página 179)

A viagem não podia ter sido mesmo confortável. Eu estava partida, e Vinícius, ao meu lado, se machucava com os cacos. (página 14)

– Você vai querer me dizer que isso é muito natural? Que pais abandonam filhos e esposa neste estado? Veja só como estou.
– É natural, sim – ele diz, guardando o frasco –, mas não deixa de ser foda. É aí que entra a bebida. (página 10)

O estado de espírito leve havia ficado no quarteirão anterior. Ele sabia. O sol estava se pondo e aquela gravidade entre Vinícius e mim, agora, mais constrangia que machucava. Ele não sabia lidar com metáforas e todas as nuances da dor que eu arrastava e que ele, sem querer, acabava carregando junto, não como cúmplice, mas como um refém que vê tudo, e precisa colaborar para sobreviver, mas, simplesmente, não entende o mecanismo daquilo. (página 79)

Ele traga o cigarro com prazer, defende-se do sol debaixo da árvore e da crítica dos outros. Não é permitido fumar.
Escondo-me melhor por trás da janela basculante. Tenho que observar os detalhes. O cigarro é a mais nova invenção dos baixos teores (noto o padrão: no decorrer dos anos a cor do filtro vai clareando e as marcas na embalagem deixam o vermelho para variar entre gradações de azul, chegam ao tom prateado e agora são brancas). Suas unhas parecem arroxeadas. Ele também não fez a barba. A camisa, furada, foi minha mãe quem deu de presente em um Natal distante. Interrogo em silêncio para onde ele olha. (página 31)

Minha mãe já está lá quando entro. Escorada no espaço da porta dos fundos. Olhando, assim, para o nada que se perdia na parede salpicada, tomada de musgo, como se estivesse catatônica. Um cigarro numa das mãos, xícara de café na outra. Por um segundo penso em sair dali. Talvez ela não tenha me visto entrar. (página 36)

Então trocou, rapidamente, o disco e voltou rebolando ao som de um samba-canção regravado. Completamente bêbada, fazendo o vestido vermelho balançar. Sorri com o nó que se formou na minha garganta quando naquela imagem vi meu próprio pai cantarolando os versos de “A volta do boêmio”. No passo trôpego dela, eu o via em sua solidão ébria. Decadência era a palavra, mas não era qualquer uma, e sim uma decadência terna dos que não pararam de sonhar. (página 195)

Porque daquela vez tivemos todos muito medo. Ele garantia ter visto a morte de perto. Disse a mesma coisa quando veio o primeiro trombo venoso e quando se internou por tantas outras coisas. Esse era o problema. Ele via a morte com freqüência demais. E tudo que a gente vê demais, olho ao redor – a escrivaninha, a cama, a parede do meu quarto pintada de azul, a camisa de flanela de Vinícius –, tudo que a gente vê demais acaba se tornando invisível. (página 186)

Além do peso do meu corpo e algumas culpas, carrego comigo o fardo dessa falta. Ela que chega em madrepérola. Essa coisa só, que se arrasta comigo fazendo vultos pelos lados. Será imortal?
Segurei forte as mãos do meu fantasma. Temos andado abraçados e concretos. Temos sido tão pouco. Sou apenas eu de mãos dadas a esperanças que nem são reais. Eu as pinto em tinta a óleo e me convenço de que são minhas. (página 345)

Foi numa luta dessa natureza que troquei os sapatos de camurça azul Klein por um de verniz preto e, com certa descrença, cumpri todo o resto do processo: igualar o tom de pele com base, criar efeitos de pontos de luz, sombras e profundidade. Técnica: base, pó, blush (entre outros pozinhos coloridos) sobre a pele. Além de secar os cabelos com secador e escova, usar perfume, lingerie e vestir, delicadamente, a roupa. (página 282)

E ela me abraça, os fogos explodem e então eu começo a chorar como se tivesse acabado de acontecer. Enquanto os fogos explodem, o som deles se mistura ao de vários espumantes que espocam, milhares de pessoas a nossa volta batem as taças. E todas elas se abraçam. E ela quer me abraçar, quer fazer com que eu me sinta melhor. Quer que eu a faça sentir-se melhor. (página 221)

Primeiro era gostar da cerveja em ondas macias. Uma onda a rebentar. Um mergulho em útero macio. Depois era gostar da espuma com os lábios finos e roxos. Passando o inferior pelo superior, limpando um bigode inexistente há dez anos. Ar. Depois era sentir o gelo no estômago. Aquela sozinhez inteira de faltar raízes. (página 228)

 – E sempre ao final ficamos não apenas com a impressão de ter feito tudo errado, mas que o outro havia feito, também, tudo errado. Passar o réveillon com você foi a melhor coisa que poderia ter acontecido.
 – Você ia morrer afogada.
 – Bom, então você salvou minha vida. (página 269)

Não havia nada de errado com aqueles sonhos. Mas eu duvidava que isso pudesse se tornar realidade. Pensava, ao mesmo tempo, nos milhares de quinquilharias acumuladas por ele mesmo dentro do quarto. Eu via que ele já havia passado da adolescência e que apesar de ter sido um dos mais brilhantes do colégio não tinha alcançado um desempenho muito superior ao dos outros quando saiu dele. Isso eu não dizia para ele, mas pensava quanto exatamente custaria chegar aquele ponto. A essa solidão sagrada. Eu pensava na história da garota que tinha dispensado ele. Todos os sonhos dele exigiam desapego. Um desapego que ele parecia ostentar. Um desapego que era milimetricamente trabalhado em cada uma de suas aspirações e gestos. Em não ter carro, namorada, em não depender da família. (página 189)

As palavras são como cores. Misturando na proporção certa, é possível chegar a qualquer gradação. E eu não encontrava nenhuma. (página 37)

 – Olhando você fazer, dá vontade de fazer também. Parece a coisa mais interessante do mundo.
 – É... – concordei. – São coisas pequenas que salvam a vida. (página 271)

Acordei num salto quando vi que Vinícius estava ao meu lado.
 – Calma – ele disse, e eu o abracei com força.
 – Você me deixa mais perto – eu disse, como se a frase fizesse parte de um sonho quebrado. Não saberia explicar.
 – Perto do quê?
Mas não respondi nada. Apenas fechei os olhos e me deixei acolher. (página 251)

            
            
            

             
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sexta-feira, 7 de abril de 2017

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NA ESTEIRA DO MESTRE




O "grande estalo" me ocorreu quando conversava, dia desses, com um discípulo desgarrado da seita. Ele reconheceu-me na fila do açougue, enquanto aguardava que me embrulhassem 500 gramas de coraçãozinho.

- Venerável Duña, manancial infindável de sabedoria, guru dos gurus, mestre dos mestres... como está Vossa Divindade?

E, olhando ansioso para o relógio, prosseguiu sem me deixar responder:

- Ando meio sem tempo de cultuar o Oráculo, sabe como é, essa vida corrida da gente... mas estou na esteira de seus ensinamentos!!! E lá se foi apressado, com seus dois quilos de patinho moído debaixo do braço.

Aquilo me abriu na mente um clarão mais luminoso que pôr do sol de calendário de quitanda. "Na esteira dos ensinamentos"... É isso!!!! É isso!!!! Genial e profético: os ensinamentos deveriam estar na esteira!!!!

De imediato passei a caraminholar, com os botões do meu desbotado hábito, de que forma colocaria em prática aquela beatífica ideia.

Já há tempos vinha quebrando a cabeça, em busca de alternativas que impulsionassem a divulgação da doutrina duñesca pelos quatro cantos do globo. Doutrina que, como todos sabem, foi codificada por Juan de la Duña, meu bisavô materno, e pode ser sintetizada na máxima "O espelho da vida é a sombra do infinito". 

Utilizar as esteiras das academias de ginástica como veículos dos ensinamentos sagrados seria a salvação da minha lavoura de jiló. Isso era indiscutível. Imaginava o fim das humilhantes pregações nos semáforos, tentando arrebanhar adeptos em meio a buzinadas e xingamentos. As esteiras fariam esse papel, enquanto eu e os demais Veneráveis da Ordem cuidaríamos de missões mais nobres e estratégicas.

Meu plano, concebido dois dias depois enquanto desenrolava um fardo de arame farpado na roça do Noviço Hector, consistia nos seguintes pontos: 

. Os principais enunciados e dogmas da seita seriam estampados nas esteiras ergométricas, prefrencialmente em letras amarelas para facilitar a leitura sobre o fundo preto. De tal forma que o usuário, ao acionar o equipamento para exercício, os tivesse literalmente a seus pés - um após o outro. As mensagens iriam se sucedendo, em efeito quase hipnótico na mente do aluno, repetidamente, até se entranharem no subconsciente. 

. Com isso, teríamos um duplo ganho: a disseminação do verbo duñesco junto aos jovens frequentadores de academias, e a diminuição do tédio da rapaziada fitness, já que o fato de caminhar ou correr em esteiras sem ter alguma coisa para ocupar a mente é geralmente monótono e desestimulante. 

. No caso de academias maiores, que contam com monitores de TV ou telões à frente das esteiras, adaptaríamos as mensagens sapienciais às telas. Mil vezes melhor e mais edificante assistir aos ensinamentos duñescos do que às persversões dos videoclips, aos cacarejantes cantores de forró universitário ou o nada saudável bate-estaca da música eletrônica. 

. Uniríamos, assim, o culto da forma física à saúde espiritual – o que seria um diferencial das academias para a fidelização de seus clientes. 

Eu, o Duña, venerável e sapientíssimo, profetizo desde já um futuro celestial para a nossa congregação.



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